|
|
Segunda-feira, Fevereiro 28, 2011
Dia desses acordei com vontade de fazer algo diferente, só não sabia o que poderia ser. Andei de um lado para outro a procura desta coisa diferente, mas é complicado procurar por uma coisa que não se tem a menor ideia do que seja. Pensei então que deveria sair de casa e ir para qualquer lugar à procura da... Do... De... Sei lá. E assim que tranquei a porta de meu apartamento dei de cara com meu cunhado, aquele tipo inglês. Contei a ele do que pensava fazer, e, consequentemente, tive de levá-lo junto para fazer sei lá o que.
Amontoamo-nos no meu fusca feito adolescentes travessos, ávidos por aventura. Contudo, como fazia algum tempo que não saía de carro o motor da minha “viatura” requeria um pouco de cuidados especiais para funcionar. Foi aí que peguei uma marreta que estava amarrada num dos pilares de sustentação do prédio, referente à minha vaga de estacionamento, e lasquei naquele motor enferrujado.
A primeira porrada que dei chegou a sair faísca. Na segunda amassou um negócio lá, mas fez funcionar a engrenagem... Tudo bem, gosto de fortes emoções. O motor estava com um ronco diferente, um pouco rouco, engasgado, afogado. Mas nada que uns 10 ou 15 minutos ligado não resolvesse. E após ter dado uma pequena esquentada no motor era ora de sair, e no meio da fumaceira azulada partimos rumo à... Qualquer lugar.
Depois de ficarmos perdidos no trânsito, ser xingado por taxistas, por motoristas de ônibus, de micro-ônibus, por motoristas comuns, por carroceiros e carrinheiros, decidimos fazer uma parada para um lanche. Foi aí que percebemos estar há quilômetros de distância de qualquer lugar que pudesse dar noção, um norte, aos nossos olhos cansados e cheios de remelas. Pensei em ligar para casa e pedir para que alguém viesse nos buscar. Porém, não me lembro do número de telefone de casa, pois nunca ligo para lá, e segundo, mesmo que me lembrasse do número não adiantaria nada, pois, se não sabia dizer que lugar era aquele pouco importava pedir ajuda. Ninguém nos encontraria. Sorte que não costumo ter pressa.
Quanto a meu cunhado, havia levado seu cachimbo. Então lá estava ele fumaçando dentro do meu fusca. Só não reclamei por que ele havia levado um charuto para mim. Então ficamos lá, fumaçando duplamente o fusca. Lá pelas tantas resolvi procurar um lugar para fazer um lanche, pois a fome já estava ultrapassando as raias do bom senso, e minha calma já apresentava pequenos sinais de que se transformaria em agressividade, principalmente depois que meu charuto havia chegado ao seu fim. Meu cunhado também sentia fome. E creio que os pernilongos e mutucas também sentiam fome, pois não paravam de atacar nossos braços e pescoços. E não é para menos, de tanto rodar sem direção certa acabamos perdidos nos arrabaldes de cidade. Praticamente no meio do mato.
Por sorte vinha um sujeito montado num cavalo em nossa direção. Pedi umas explicações, umas direções, uns pães, uns copos de leite... Qualquer coisa que desse para comer. E depois, ir embora descansar... Isto se conseguisse chegar em casa. Enfim, o sujeito que andava à cavalo nos levou para sua casa. Lá comemos umas generosas fatias de pão caseiro com manteiga feita em casa e uns doces de abóbora, de batata e sei lá mais quê. E de quebra trouxemos um pedaço de porco que nossos anfitriões haviam matado na parte da manhã. Ainda tinha mais uma caixa de tomates que ganhamos. Valeu à pena ter nos perdido do caminho que ninguém sabia qual era.
Apesar de tudo a tarde foi muito boa. Dirigi depois de muito tempo, fumei tranquilamente um charuto. Dei de comer aos pernilongos, muriçocas, pulgas e o que mais fosse, e tudo com apenas umas poucas gotas de meu sangue. Tomei um gostoso café com pão caseiro. Ganhei até um pedaço de porco... E ainda consegui voltar para casa. Putz, esta tarde foi das boas. Sabe que até penso em me perder de novo com meu cunhado, mas da próxima vez quero ir para o outro lado da cidade. Talvez consiga encontrar umas coisas boas para comer, ou até mesmo ficar à toa também. É isso.
Enquanto passeávamos por todos os lugares e sem saber que lugares eram esses, encontramos um festival qualquer num parque qualquer, e a música que tocava no momento de nossa passagem não era aquele do "ado, ado, ado, cada um no seu quadrado", e sim, "olha, olha, olha, cada um na sua bolha". Então percebemos que já existia um sujeito dentro de uma bolha. Sei lá, cada um que aparece.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 00:38 [+]
...
Sexta-feira, Fevereiro 11, 2011
Então dona Genoveva pegou o telefone e discou o número que aparecera na tela do programa da televisão. Estava ansiosa, nervosa talvez, ou quem sabe, excitada ao saber que teria a chance de falar com aquele apresentador, o jornalista famoso, importante, e com o maior jeito de boneca enrustida que faz o gênero garanhão.
− Alô, dona Genoveva, a nível de escolha, quem a senhora acha que vai levar fumo no dia de hoje? E sabendo disso o escolhido, entre as três pessoas selecionadas para a Fumada, sairá do Barraco com uma mão na frente e outra mão atrás. Mas se preferir, o escolhido pode sair do “Grande Chapa 2011”, dar adeus ao Barraco no maior estilo Liso, Leso e Louco. Disse assim o apresentador com cara de sarcástico enquanto tentava tirar uma casca de pipoca de um de seus dentes.
− Alô? Heim!? A sim, olha Dido, tipo assim, a nível de escolha eu queria sim. Tem um tipinho que não me desce; é o Xaxá, ele é chato, fortão, tatuado... Muito tatuado e muito fortão também. E veje só você, não gosto dele. Mas tudo bem. E também tem uma dona que só sabe rebolar. Rebola desde quando acorda. E até quando está na cama com mais um ou dois juntos com ela; e na mesma cama... Eu já disse isto? Ah, tudo bem. Sabe de quem eu tô falando? É da Dinarda. Mas tem aquele outro xarope, só sabe chorar; não gosto disso. É o Dadê. Ele é muito magro, só rebola, só sabe cantarolar aquela música, e ainda cantarola errado. E tem mais, não sabe a letra da música... Aí não dá. Emendou a mulher
− Eu só fiquei com pena da Matilde, parece uma sofredora. Até estrupada foi quando estava no colégio. Me deu uma dó... Cinco moleque de uma vez só. Pobre menina. E do jeito que ela contou até eu senti as dor dela. Ela só não devia, na minha opinião, tirar a parte de cima da roupa e mostrar os peito praquela homarada toda do Barraco... Nem fazer o copinho de água desaparecer por debaixo da saia dela... Muito feio isto. Relatou assim dona Genoveva, que se sentiu toda importante depois disso. Mesmo sabendo que a sua conta telefônica seria balizada nas alturas no final do mês.
Então, outro telefonema aconteceu, outro palpite furado, outra inutilidade sendo exposta aos ouvidos daqueles que assistiam ávidos por aquilo. A voz do sujeito era rouca e pigarrenta. Talvez depois de tanto beber ou comer doces, ou as duas coisas juntas.
− Ã... Haham... Ó, seu Dido, acho que, a nível de escolha, percebo que tenho que fazer isso. Minha patroa não gosta da Dinarda, diz que é uma sem-vergonha... Ah, deixe eu se apresentar, eu sou o, eu se chamo Bernardo Aparecido de Jesus... Tipo assim, eu não tenho nada com isso, não vejo nada de ruim nela, a Dinarda. Agora, eu não gosto nem do Xaxá, que peida todo momento, nem do Dadê... Sujeito fresco. Ele chega a me incomodar a mim só com a voz dele. Disse assim o Bernardo enquanto assassinava a estrutura das frases numa demonstração xucra do domínio de seu idioma. Mas, mesmo assim, continuava a assistir e palpitar sobre um estúpido programa de tevê.
Quanto a mim, estava amortecido, meu cérebro estava derretido, tinha virado geleia. Doía minha barriga, mas não sabia dizer por que. Então, meus olhos se voltaram para o aparelho de tevê contra a minha vontade... Na verdade minha vontade era ficar sem vontade alguma. Mas, enfim, meus olhos viam o chato do apresentador, o Dido, dizendo merdas, a bunduda e escrachada da Dinarda também dizendo merdas. Em compensação o Xaxá só dizia merdas. Contudo, o jovem Dadê, um pouco mais esclarecido que os demais, dizia merdas com profundidade. Agora o pior foi ter de ouvir a Genoveva e o Bernardo e suas merdas opinativas; cheias de calor e pretensiosamente cheias de razão.
Que fiz eu para melhorar este quadro? Que eu me lembre, nada. Bom... Abri uma lata de cerveja, bebi-a toda, depois abri outra lata e virei de uma vez só. Foi aí que decidi desligar a porcaria do televisor e subi alguns andares até aquele vizinho militar que ainda não sei o nome. Chegando lá, para variar, estava com a porta de seu apartamento aberta. Tratei de entrar e logo me sentar naquele sofá cheio de latas de cerveja. E agora, um gato dormia sobre as latas como se fosse uma estranha pintura mal, bem mal acabada.
Ele virou-se para mim, levantou uma sobrancelha e falou alguma coisa. Coisa esta que não me lembro agora. Na sequência jogou uma lata de cerveja em minhas mãos. Então levantou a dele e fez a menção de brindar. Brindamos e bebemos. Enquanto isso tocava “I Take What I Want” dos Hollies no antigo rádio. Em contrapartida na tevê passava o programa do Grande Chapa. Logicamente que ninguém ouvia nada, pois o velho arrancou o botão do volume deste aparelho eletrônico. Melhor assim.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 13:35 [+]
...
Quinta-feira, Dezembro 30, 2010
Estava eu debruçado na janela da sala observando, durante algumas horas talvez, a vida moribunda e robótica que acontecia lá embaixo quando decidi fazer outra coisa. Deitar, por exemplo. Pensei que isto fosse a solução para mim. Mas assim que me deitei percebi que tal coisa não estava bom. Sentia que algo melhor poderia não acontecer se ficasse numa cama. Apesar de a cama estar convidativa por demais. Pensei.
Assim sendo tratei de me arrancar de casa e ganhar as ruas e encher meus olhos de vida, ainda que moribunda e robótica. Fui então ao café, lugar este que fazia tempo que não ia. Confesso que não percebi muita diferença no ambiente, tomando por base os tempos que nele passava minhas tardes. O detalhe é que os atendentes estavam agora mais aborrecidos; amofinados com suas vidas moribundas, e, consecutivamente, robóticas.
Dos velhos que frequentavam lá poucos deixaram de comparecer no local. Posso me incluir nesta lista, junto com o Pereirinha e o Adalberto. O Azambuja até chega para um cafezinho, uma arrastação de cadeira básica e uma organização de revistas e jornais. Tudo como antes. Bom, segundo os garçons, houve uma pequena mudança nas manias, acrescentou mais um item nesta lista. Agora ele penteia os cabelos dos outros clientes, sejam eles conhecidos ou não. Dos carecas ele passa um lenço para deixar a coisa a reluzir sob as luzes... Muito estranha esta mania, realmente.
Em compensação o Beleléu, sujeito que tem o hábito de frequentar botecos em vez de cafés, não se apurou naquele ambiente ao ter aparecido por lá para nos encontrar. Como chegou antes de nós ficou sozinho num canto, pois ele não conhecia ninguém de lá. Mas como disse há pouco, não se apurou por não nos ver; sacou de uma caixinha de fósforos do bolso e se pôs a cantar e a batucar qualquer coisa. Só para passar o tempo mesmo. Pura diversão... Para ele apenas, pois o resto da rapaziada, digo, velharada, não gostou. Todos olharam com reprovação.
Não condeno ninguém por isto, nem pelo sambinha, ou sei lá o que era aquilo, mal executado, nem pela tentativa frustrada de mudar aquele ambiente tão moribundo e tão robótico. Enfim, as coisas prosseguiram do jeito que estava, uns com cara de poucos amigos e de entojo, e outros com a mesma cara de uns. Resumindo, aquilo estava uma bosta. Tratamos de tomar nossos cafés rapidamente e cair fora de lá. Sabe, depois que o café mudou de dono aquilo tudo ficou chato... E caro também.
Então saímos todos de lá. Eu aborrecido por não me sentir bem, o Azambuja por não conseguir dar seus lustros nas carecas alheias, o Beleléu por não poder batucar na sua caixinha de fósforos, o Pereirinha... Bem, o Pereirinha e o Adalberto tanto fazia do jeito que estava, pois o primeiro estava cansado, então quase dormiu sentado. E o segundo estava curtindo uma música qualquer. Detalhe este que, por sinal, deveria estar boa, pois suas mãos tamborilavam sem parar no tampo da mesa.
Caminhamos algumas quadras entre as milhares de pessoas que se atropelavam eufóricas pela Rua XV. Todas apresentando em seus semblantes a expressão de estarem perdidas naquele alvoroço todo. Afinal de contas, fazer compras para o Natal nesta época do ano é sim, coisa de gente sem noção. Para encontrarmos um lugar que viesse a nos agradar demorou um tanto, e entre uma sacolada ou bolsada nas pernas, braços, cabeça, ombros e costas. Ainda tinha que nos preocuparmos com as caixas grandes que poderiam e certamente iriam nos acertar em qualquer momento desta aventura.
O mais esperto da nossa trupe sem dúvida era o Pereirinha, que se atirava em saltos espetaculares de um edifício a outro, quanto a nós, só poderíamos caminhar, e ainda com dificuldade. Primeiro por que eu tenho um pé de plástico, manco e canso fácil. Segundo, pelo fato de nossas idades e terceiro e o mais complicado, pela porção de gente amontoada nas ruas, calçadas, lojas, farmácias, mercados e onde mais tiver lugar para se amontoarem. Resumindo, um verdadeiro caos. Um teste para os nervos.
Algum tempo caminhando, empurrando e sendo empurrado no meio da multidão, chegamos a um lugar. Sentamos e pedimos umas cervejas a um sujeito que estava de bobeira pelos arredores do balcão. Descobrimos que tal pedido foi em vão, pois ele também estava à espera de alguém que o viesse atender. De repente tivemos uma surpresa. Num canto do boteco um cidadão vestido de Papai Noel saiu de trás de uma pilha de caixas de papelão gritando, gargalhando, suando e peidando fedido. Um horror. Certamente aquilo foi a cena pavorosa do final do ano. Só não foi pior que a do aumento de salário dos deputados. Aquilo também foi outra coisa pavorosa.
Bom, aconteceram duas coisas ao ver tal Papai Noel, o sujeito que aguardava por um atendimento caiu fora, e nós também. Claro. Resolvemos seguir até o Seu Garçom, afinal de contas, o velho Odil sempre está por lá. Contudo, até chegarmos lá levamos mais pacotadas, sacoladas e qualquer outra coisa nas costas, braços, pernas e cabeça. Chegando lá demos com o Odil dançando na maior gafieira promovida por ele, além dos três, quatro ou cinco papais-noéis fazendo onda na porta do estabelecimento com seus sacos de balas pendurados em suas cuecas. Peças íntimas estas que estavam por cima das calças... Tudo bem. O chique da medonhice e o cúmulo da bizarrice por todos os lados. Este sim é o verdadeiro e inconfundível espírito do Natal.
Enfim, o fato é que tudo estava uma verdadeira zona. Ao mesmo tempo em que ninguém se entendia naquela dança toda, todos interagiam como se fossem apenas um naquele salão superior do boteco. Uns, aliás, dançavam com seus pares em cima da mesa de bilhar. Estava bonito de se ver. Conversas não existiam, afinal de contas, ninguém queria papo com ninguém, apenas dançar. Então, como não gosto mais de dançar, enchi a cara de chope e caí fora de lá. Queria ir para casa descansar um pouco. Porém antes mijei na porta da agência bancária que fica em frente ao lugar. Banheiro? Você pensa que tive tempo para isso? Havia fila para entrar na fila do sanitário, de tão cheio que estava.
Mas foi assim. A animação estava boa e eu perdido no meio daquela multidão que dançava até nas calçadas. No entanto eu estava no barato de ir embora mesmo. Não queria ficar mais ali, naquele lugar. Estava cansado de ver muita gente amontoada nos lugares. Estava cansado das coisas que aconteceram no ano. Estava cansado do ano, e o ano de mim. Então tratei de me arrancar de lá direto para minha casa. E assim eu fiz. Acenei para meus companheiros e fui embora sem demora. Certamente os encontraria logo no começo do ano. Certamente que sim. Desta forma peguei o ônibus e chispei rumo ao meu lar, e assim, descansar com minha família.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 23:10 [+]
...
Quarta-feira, Setembro 29, 2010
A manhã estava tranquila, o sol brilhava num céu sem nuvens e uma brisa fresca vinda das montanhas. De repente Ernest, o menino que vendia jornais, gritou logo abaixo da minha janela:
− Senhor Lindsay, corra ver. Os tubérculos da senhora Stan estão desaparecendo. Algo está puxando para baixo da terra.
Sem dúvida não era todo dia que podia se ver, tubérculos desaparecendo em plena luz do dia. Pensei comigo mesmo enquanto passava as camisas brancas do milionário Brandshaw.
Não demorou muito para se ouvir as sirenes da polícia, do departamento de trânsito e do Corpo de Bombeiros passando em alta velocidade pelas ruas seguindo em direção à horta da senhora Stan. Então George, o rapaz que me trazia o almoço gritou desesperado no balcão de minha lavanderia.
− Senhor Lindsay, largue suas coisas e vamos lá ver. O xerife Wood mobilizou um grupo de rapazes do condado vizinho para ajudar no extermínio deste ser estranho. Falou assim, entre arfares, suando e com a face rubra.
A curiosidade falou mais alto em mim. Mas ainda tinha que terminar de passar aquelas camisas, pois logo Brandshaw viria pegá-las. Decidi que terminaria o trabalho primeiro para depois ver os acontecimentos. Logo o milionário chegou com sua caminhonete às pressas. Desceu às pressas e se dirigiu para meu balcão às pressas também.
− Vamos Lindsay, largue suas coisas e vamos ver os acontecimentos. Disse-me assim enquanto seus olhos procuravam sei lá o que pela janela. Então lhe disse que ainda não havia terminado com suas camisas.
− Ora, vamos. Deixe essas coisas aí, tudo acontece lá na horta e você preocupado com camisas? Até o exército fora chamado... Dizem que a “coisa” vem de outro mundo; Marte, talvez. Concluiu.
Logo a senhora Stan, que estava na casa das irmãs Johnson para o habitual chá da tarde, viu uma estranha movimentação pelas ruas da pequena cidade. Tinha policiais em todos os lugares, soldados do exército, muitos correndo de um lado para outro sem saber ao certo o que estavam fazendo lá. A corporação dos Bombeiros também estava lá, a companhia de trânsito. Logicamente que sem saberem por quê. Ambulâncias posicionadas em locais estratégicos para aguardar feridos, se houvessem. Equipes de televisão também compareceram, várias delas, de todos os cantos do país, só aguardando o inesperado acontecer.
O prefeito Hudson compareceu juntamente com sua equipe técnica, e assim que chegou transformou seu próprio carro num palanque. Com suas botas e chapéu de vaqueiro subiu, com certa dificuldade devido a enorme barriga, na enorme carroceria de sua enorme caminhonete. E antes de falar qualquer coisa sacou de seu charuto de um dos bolsos do paletó, cortou-lhe a ponta com os dentes e o acendeu cheio de prazer. Então gritou ao povão com uma voz falhada e cheia de pigarro:
− Pessoal, prestem atenção no que tenho a dizer... Ã... (uma pigarreada para limpar a garganta) Temo que tenhamos que fazer algo em prol de nosso povo... Além do que já se fez até agora. A situação que nos encontramos denota que precisamos nos unir, juntar forças, fortalecer os alicerces da... Do... (uma segunda pigarreada para limpar a garganta e também para tentar lembrar o que ia dizer)... Enfim, precisamos nos unir para vencer esta força maléfica. As eleições estão próximas, portanto, votem em mim, pois Deus está do nosso lado.
Então, assim que todos começaram a aplaudir aquela falação boba, alguma coisa explodiu sob o terreno da senhora Stan. E todos, incluindo o prefeito, que há esta altura dos fatos encontrava-se com seu charuto esmigalhado entre o chapéu e sua careca, correram para mais longe e mais depressa possível. Gritarias, estouros e papéis voando para todos os lados; uma loucura. E quando as coisas pareciam que poderia ter uma melhora...
Clic...
− Ó, Teófilo, com quem ficou nosso filho após o baile na casa de Mme. Guiomar? Perguntou assim a bela dama com seus cabelos e o vestido de seda balançando suavemente ao vento enquanto, discretamente, ajeitava sua calcinha para não mais a incomodar, pois esta encontrava-se categoricamente enfiada entre suas nádegas rebundantemente torneadas.
− Ora minha querida... Que sei eu sobre nosso filho. Pouco antes de sairmos da residência dela, Rodolfo, aquele peralta, já havia saltado três vezes entre a coleção de porcelana chinesa e corrido duas vezes com os braços abertos naquele corredor onde estava cheio de taças e outras peças feitas em cristal Baccarat. Logicamente que aquilo me arrepiou os cabelos. Então tratei de cair fora de lá antes que algo trágico acontecesse. Disse assim Teófilo à sua esposa.
− Mas por que saímos sem o Rodolfo? Indagou entre um grito histérico e outro, num ato de puro desespero, quase chegando às raias do ridículo.
− Justamente meu bem. Já pensou se fossemos vistos ao lado daquele pequeno delinquente? Ui! Que me dá até uma coisa pensar nesta hipótese. Respondeu assim durante uma ligeira coçada na axila esquerda.
Clic...
− Capitão, já estamos prontos para zarpar. Disse assim o primeiro imediato a seu comandante.
− Certo, então vamos... Para onde é que vamos mesmo? Perguntou o ignóbil e esquecido ser.
Clic...
− Próximo! Gritou a funcionária. − Para onde o senhor deseja ir? Perguntou ao homem que parou diante de seu guichê.
− Veja, estou com pressa, sinto dores, azia e tremores nas pernas... Aceita um chocolate? E antes que a coisa ficasse muito, mas muito estranha, ela se retirou do guichê. Abriu a porta de sua sala e rumou até o sujeito. Encarou-o na maior seriedade e lascou-lhe um tremendo beijo na boca. Todos da fila se manifestaram; uns deram apoio, outros ficaram com inveja e outros nem sabiam o que estavam fazendo naquele local.
Clic... Zuim... Plec.
Puta merda, a programação na tevê está cada vez pior. Quando não são aqueles programas ridículos onde as pessoas ficam confinadas numa sala, ou numa sela, num quarto ou no raio que o parta, fazendo fuxicos, futricas e fofoquinhas só para ganhar pontos e fazer o povo acreditar que ganharam rios de dinheiro, surgem musicais onde as pessoas, além de saber cantar, tem de saber representar uma máscara, pois a produção do programa quer ver sua audiência melhorar. Tudo em prol da riqueza, da fortuna. Aí então ganham com patrocinadores, políticos com tipo de bacana e bom samaritano também dão suas contribuições... Monetárias, e nada mais. Ô raiva.
Por isso desliguei esta porcaria. Este aparelho que faz as pessoas perderem horas preciosas de suas vidas quase sem valor para ficarem ali, estáticas, imóveis, inglórias. Então fui até o boteco. Bebi para ver se afogava minhas ideias. Mas claro, tomando cuidado para que o ideal não fosse soterrado pelos cacos de vidro dos copos quebrados no chão do estabelecimento. Então pedi um doce de abóbora, daqueles que tem o formato de um coração, mais uma porção de balas de goma, e fui-me embora xingando o prefeito por causa das péssimas calçadas que compõem as ruas do bairro onde moro. Oras, só nesta minha volta para casa caí duas ou três vezes, por causa do meu pé de plástico.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 00:30 [+]
...
Segunda-feira, Maio 03, 2010
O tempo passa e percebo que o mundo está cansado, os governantes se cansaram das pessoas e as pessoas dos governantes, além do que as pessoas estão cansadas de qualquer negócio, os cachorros, gatos, marmotas, elefantes e outros bichos mais também estão cansados, mas nem por isso que tais cansativos acontecimentos me influenciarão nas minhas ações diárias. Mesmo por que acredito que possa ser minha má vontade de fazer as coisas que acabaram influenciando tudo mais. Contudo, sendo isto ou não, tentarei vivendo do jeito que sei e que gosto, se é que gosto de alguma coisa. Então, passamos adiante.
Estava eu com todo o tempo do mundo para não fazer porra nenhuma quando em casa chegou meu cunhado. Aquele metido à inglês e à lorde que vive zanzando por aí... Aliás, fazia tempo que não o via. Talvez estivesse empreendida alguma viagem pelo mundo ou qualquer coisa que valesse a pena. Mas em vez disso, pelo que soube, ficou na cidade fazendo o mesmo que eu, ou seja, nada. E como ele sempre foi mais recluso que qualquer pessoa junto, ficou em casa aborrecendo minha irmã, aborrecendo os vizinhos com suas críticas ferinas, com o fumacê de seus charutos e cachimbos pelos corredores do prédio onde vivem. Enfim.
Contudo, quando nos juntamos costumamos fazer dessas coisas da pior maneira, e tudo o que disse há pouco acontece em dobro. Logicamente que ter dois velhos chatos, fumando e reclamando de tudo é muito cansativo. Agora tente imaginar mais o Pereirinha pendurado nos lustres, sobre os armários ou pulando de cadeira em cadeira ou ainda, o Azambuja tentando deixar todas as gavetas de todos os móveis fechadas de maneira com que fiquem alinhadas, mais a arrastação de sofá, cama, cadeiras, máquina de lavar roupas e qualquer outra coisa mais. E para completar esta situação surreal, o Adalberto apareceu, simplesmente, pois este não conversa mais devido ao aparelho de som implantado em seu cérebro e que fica ligado 24h no dia. Não que isto fizesse alguma diferença, pois ele sempre ficou mais calado que qualquer um de nós junto ou separado, tanto faz.
Então é isso aí, fomos todos, por imposição de nossas senhoras, para rua. Enfim, ganhamo-na, mesmo contra nossa vontade. Mas de qualquer forma já tínhamos um ponto positivo, conseguimos sair de casa, pois ficar socado dentro de um imóvel de aspecto familiar não agrada. Veja bem, quando quis dizer aspecto familiar não me referi àqueles ambientes onde costumamos ir para nos divertir, como bares, por exemplo. Disse familiar no sentido de local que reúne a parentada.
Em princípio pensei em ir ao apartamento daquele outro militar aposentado, mas como sei das condições de chiqueiro que ele vive preferi pensar em outra coisa. Se meu cunhado vê uma coisa daquelas me bate, e não me deixa nem com tempo para explicações. Então, pensando no meu melhor, resolvi levar a velharada a um dos botecos da região. No entanto, quando estávamos caminhando para lá e para cá, e eu com cara de perdido, surge às buzinadas o velho camarada Odil dirigindo uma Kombi modificada e com aparência de canivete suíço.
Estranho, pensei, ele estava no México, e agora está aqui, será que foi ele que trouxe a grande gripe da onda, a H1N1?... Cá pra nós, isto é nome de gripe? Enfim, foda-se, quem se importa. E continuei pensando. Lembro que o melhor nome de gripe que já ouvi falar foi o da Geni. E o pensamento se estendeu. As pessoas queriam jogar pedra, cuspir e no máximo que conseguia fazer era espirrar, tossir e escarrar... No chão. Bom, pensamentos estúpidos à parte, mas era momento de diversão. Então nos apinhamos naquele estranho veículo e todos saímos para algum lugar. Para qualquer que fosse.
Dentro da tal Kombi à la Transformers estava o Grupo Emanochoro descascando seu repertório, e embalado com boa música fomos a algum lugar. Na realidade não sabia para onde estávamos indo, pois sabia que o antigo bar dele havia sido vendido, trocado ou doado, sei lá. Mas tanto fazia saber este tipo de coisa também. O importante era sair para aproveitar o que a vida tinha de melhor. Faltava apenas descobrir realmente o que seria melhor para minha vida. Mas isto também era querer saber demais.
Após algum tempo chegamos num boteco perto da rodoferroviária, no Seu Garçom... Nome sugestivo, pensei. De repente uma enorme faixa pulou do alto de um prédio com dizeres que não pude identificar na ora, mas sei dizer que era coisa boa. Na sequência dúzias de fogos de artifício espocaram no céu. Parecia até final de campeonato, foi uma coisa louca. Cerveja, chope e o que mais quisesse para beber e comer, parecia sonho. E tudo ali diante de meu nariz cheio de cravos e imensos pelos. Contudo, não sabia entender o porquê daquilo tudo.
Então o Odil, simpático como sempre, acionou a escada Magirus que estava escondida dentro da Kombi/canivete suíço e subiu até o topo, e do alto dos 55 metros de altura gritou, com ajuda de um megafone, depois riu, assoviou e gritou novamente. E depois que a euforia se foi e o nível da testosterona abaixou conseguiu então dizer alguma coisa, e tal coisa me deixou ligeiramente comovido. Disse que... Não sei na verdade o que disse, pois a algazarra na porta do boteco era tamanha que nem com o auxílio do megafone pôde-se ouvir com clareza. Mas tudo bem, a cerveja ainda estava gelando e a costeleta de porco estava por ficar assada.
Assim que a escada baixou e o Odil caiu fora daquela parafernália toda, as coisas ficaram mais claras para mim; era então o momento de comer e beber. E assim aconteceu. Dei uma corridinha ridícula para dentro do estabelecimento e segurei um lugar para sentar, pois o lugar já estava cheio, e eu não estava com a mínima vontade de ficar em pé. Após me estabelecer acomodadamente lembrei que havia ido até o bar na companhia dos amigos, aí então resolvi procurar por eles.
O Pereirinha, depois de tomar alguns chopes, estava certo de que deveria também subir na tal escada Magirus. E por lá ficou um bom tempo... Horas, talvez. O Azambuja sorriu entre as fileiras de copos de chope que estavam categoricamente instalados ao lado da chopeira. Creio que ficou feliz pelo que viu. O Adalberto ouvia música sincopada enquanto tocava no bar um chorinho bem animado. Então, para efeito visual, ele estava se divertindo. Coisa esta que realmente estava se divertindo, caso contrário já teria indo embora.
Mas veja só como são as coisas, quando a festa começa a embalar, e na vida surgem luzes de felicidade, surge também o momento de partir. Tudo bem, prefiro quando durmo em casa mesmo... O que aconteceu com meu cunhado? Ele foi junto? Ah, sim... Lembrei disso agora. Bom, ficou do lado dos músicos bebendo e bebendo e bebendo sem parar. Nem quando ia ao banheiro ele parava de beber. Durante o tempo que fiquei sem vê-lo acabou desenvolvendo um artifício, uma engenhoca que permite o sujeito fazer outras atividades sem precisar parar de beber. Qual foi este invento? Oras, costurou um bolso extra-largo por fora de seu paletó capaz de suportar até um caneco de 500 ml de bebida. Sei que a coisa é medonha, mas, funciona.
então era ora de voltar, é sempre assim. Mas o Odil, homem hábil por natureza, criou uma outra parafernália capaz de resolver qualquer problema de transporte ou falta dele. Imagine que uma imensa catapulta foi desenvolvida e montada em cima do imóvel onde funciona o bar. E este negócio tem radar e um alarme que acusa algum obstáculo que exista ou prevê a possibilidade de que possa existir algum obstáculo durante o trajeto das pessoas até seus lares. Aliás, fiquei sabendo que o sindicato de taxistas anda bronqueado com ele pelo fato de não dar esta colher-de-chá para os ditos profissionais do trânsito, ou seja, sem clientes para os táxis depois da bebedeira.
Mas é isso, a festa estava boa, as bebidas foram na medida certa, ou, melhor dizendo, foi muito além da medida que precisava. E depois, muito depois que talvez volte a lembrar dos pensamentos que estava tendo antes desta surpresa, que eram justamente sobre o aborrecimento e o cansaço que todos no mundo estavam experimentando... Quanta besteira costumo pensar quando fico em casa sozinho. Mas é isto.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 01:29 [+]
...
Segunda-feira, Abril 19, 2010
Dia desses não tinha o que fazer, e para variar fui procurar algo interessante que pudesse passar meu tempo. Algo que pudesse entorpecer meu relógio, para que eu não pudesse mais vê-lo funcionando adequadamente, que também pudesse entorpecer os degraus do meu prédio para que estes ficassem menos ríspidos para com aqueles que tropeçam nestas elevações dobradas geometricamente. Para que pudesse entorpecer minha mente a fim de esquecer detalhes chatos da vida como, por exemplo, lavar louças, limpar as bostas do cachorro pela casa, fazer compras e coisas deste gênero... Enfim, isto.
Para evitar que atividades deste tipo me aborrecessem por demais tratei de arranjar alguma outra coisa para fazer. O que fiz? Saí de casa, oras. Então segui meus instintos, subi uns andares e parei diante da porta (sempre entreaberta) daquele outro militar aposentado. Adentrei, pois, não adianta bater à sua porta ou tocar a campainha. Ele nunca atende. E logo que entrei me sentei num buraco que tem entre o braço do sofá e as dúzias de latas de cerveja vazias, todas empilhadas categoricamente no restante do móvel.
Após alguns cumprimentos silenciosos, feitos com movimentos verticais por nossas cabeças, sentei-me no único lugar vago, o tal buraco no sofá entre o braço e as latas de cerveja. Seu aparelho de tevê estava ligado, mas isto era um mero detalhe, pois não saía som algum dele. Havia um rádio tocando músicas agradáveis para embalar nossa tarde modorrenta. Naquele instante tocava Don’t Let Me Be Misunderstood na versão de Nina Simone, que dava o ar de sua graça para nossa tarde sem graça. E nesta condição permanecemos por algum tempo; sem graça e tentando encontrar coisas para fazer de graça.
Contudo, as músicas, ainda que boas, se apresentavam aos nossos ouvidos para nos afundar cada vez mais na lama da mesmice. Midlake se apresentava no palco de nossa modorrenta tarde com a música We Gathered In Spring. Em seguida o pessoal do Fairport Convention surgiu para tocar a música Dawn... Nada mais apropriado poderia tocar naquele instante. Afinal de contas queríamos algo melhor para nossas tolas vidas.
E como num passe de mágica as coisas começaram a pegar outro rumo, a começar pela música, que como num tombo do programador da rádio as canções se tornaram mais alegres... Um pouco, pelo menos. Assim que começou a tocar Time After Time da Cindy Lauper na versão dançante do Paul Anka percebi que as coisas realmente ficariam melhores. Na sequência surgiu uma pedrada da Tabitha Zu explodindo seus violões com Heard It Before. Nesta altura dos fatos nossos pezinhos saracoteavam no piso de taco incrivelmente lambuzado com várias camadas de cera. Piso este que facilitava o deslizamento dos pés. Tudo bem, gosto de deslizar os pés em chãos incrivelmente lambuzados de cera.
Quando estava me preparando para pegar a quarta ou quinta lata de cerveja um sujeito usando máscara e armado entrou no apartamento. Era nítida a falta de educação e de bom gosto nele... Mas não consigo me lembrar da besteira que falara, pois fiquei ligeiramente nervoso. Melhor dizendo, houve um certo apavoramento de nossa parte, sabe? Não sabíamos se nos deixaria amarrado no banheiro (Naquele banheiro imundo onde as baratas procriam livremente) sem as nossas cervejas, e ainda, ouvindo alguma rádio onde tocasse aquelas nojeiras que rotulam de sertanejo ou o que é pior, ouvindo aquela besteirada do axé ou aquela canalhice do pagode ou aquela detestável e imperdoável moda do funk. Realmente não saberia dizer o poderia ser pior. De qualquer forma, qualquer coisa poderia ser traumatizante.
Mas ao ver aquela verdadeira zona pelo apartamento (quilos de latas de cerveja espalhadas por todo o imóvel e sobre e sob os móveis, mais o cheiro de urina impregnado no local e as músicas que tocavam na ora) ele gritou de desespero, meteu um chute nas latas que se amontoavam no sofá e foi embora revoltado. Confesso que fiquei fora de mim, perdi a noção do ocorrido e me urinei todo. Então olhei para meu colega de tardes inúteis para me desculpar do que acabara de fazer. No entanto, ele, não me disse nada, apenas me olhou com um olhar de perdido e se levantou de onde estava sentado. E ao fazer isso reparei o fundilho de suas calças todo cagado. Então preferi ficar quieto e não dizer nada sobre o que eu acabara de fazer.
Assim sendo permanecemos sentados por um tempo mais, pegamos cada um uma latinha de cerveja, e voltamos a fazer o que estávamos fazendo, ou seja, nada. E tudo ficou como estava antes, pelo menos quase tudo. Um sofá ficou mijado e outro cagado, além das dezenas de latas que ficaram um tanto mais espalhadas pelo chão, mesa e outros lugares que não lembro agora quais foram. Mas tudo bem, ele não liga para estas coisas. Além do quê, são coisas pouco ou nada importantes. Depois deste episódio inusitado resolvi que seria uma boa ocasião para retornar ao meu lar. Então deixei o velho militar sentando no seu sofá bostiado escutando a música Bye Bye, So Long, Farewell do Guilherme Arantes. Mas ele sabia que um dia voltaria para o costumeiro bate-papo etílico. Mas também precisava trocar de calças e quem sabe, tomar um chazinho com algumas bolachas para mudar minha tarde tragicômica.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 15:58 [+]
...
Sábado, Janeiro 16, 2010
Sabe aquelas noites aonde os sonhos vêm rebentando e amolecendo o cérebro? Pois bem, dia ou noite dessas tive uma absurdice dessas. Após um belo jantar, que por pouco não explodiu o estômago, e com algumas várias taças de vinho, que por pouco não explodiu a cabeça, fui dormir. E com a pança e a cabeça cheia fui ter com a cama uma estranha relação de ódio, amor e delírios extremos. Por alguma razão desconhecida, ou conhecida, mas ignorada, acabei por sonhar que tínhamos pelos como os dos cachorros. Imaginou? Cada um de nós com seus imensos pelos brotando dos braços, costas, peitos, pernas e cabeça... Toni Ramos se sentiria à vontade neste devaneio. Aliás, creio que ele gostaria que este tipo de coisa fosse a mais profunda das realidades.
Mas, deixe-me continuar. Assim que acordei para o sonho e não do sonho, tive a estranha sensação de que algo estava errado. Demorei um pouco para entender que aquela pelarada toda não fazia parte de meu corpo, nem do corpo da Olga ou dos netos, da sobrinha ou dos meus amigos... Tirando o Pereirinha, claro, que já é bem peludo, afinal ele é um macaco. Mas isto não vem ao caso agora, nem teve lógica naquele momento, como, aliás, nunca encontrei lógica em qualquer dos sonhos que já tive. Enfim. Não estou aqui para discutir sobre devaneios sobre as lógicas ou lógicas sobre os devaneios.
Lá pelas tantas, quando tudo aquilo parecia, mesmo que momentaneamente, ficar normal, a coisa toda desandou de vez. Alguém, que não lembro quem, entrou eufórica pela sala, que tinha uma porta grudada no teto, dizendo que teríamos um casamento para ir. Até aí tudo bem, bastava eu me enfiar na velha roupa para estes eventos sociais, o terno. Mas o problema estava apenas começando, não existia terno no meu sonho, teria de alisar os pelos, ou enrolar, ou o que fosse. Então pensei na hipótese de pegar a escova do cachorro para me escovar... Ótimo, pensei. Mas quando fui para pegar a escova me deparei com o cachorro lambendo o pé da cama; uma situação comum se não fosse um pequeno detalhe, o cão tinha aparência humana, e ainda, cheio de moscas rodeando seu corpo carunchento.
Tudo bem, pensei, teria que improvisar neste caso, continuei pensando. Então pensei um pouco mais, e com todo este pensamento acabei peidando. Tudo bem, isto acontece. Mas a situação tinha que melhorar, pois, como é que eu iria ao tal casamento com meus pelos desgrenhados, embaraçados e com restos de comidas grudados neles. Contudo, a Olga que é uma pessoa, ou que parecia ser até começar este sonho estúpido, sugeriu que eu fosse até um Bet Shop... Ã? Pet Shop? Tudo bem. Então, ela me disse que lá me dariam um trato no visual. E eu fui mesmo. Só não contava que o trato no visual incluísse aí uma inadvertida tosa higiênica... Miseráveis! Quem mandou esta gente raspar os pelos da minha bunda? Terão troco. Esperem só.
Mas tudo bem, a raiva logo passou, pois ficava gostoso quando batia o ventinho. Então, quando fomos à festa a coisa toda ficou maluca de vez. Não raramente podia-se ver as pessoas sentadas nos cantos... No chão, de preferência, lambendo as pernas, outros mordendo os pés, alguns outros cheirando e lambendo paredes, e outros, que aproveitavam que também tinham feito a tal tosa higiênica, para lamber suas próprias bundas. Meus amigos e eu participávamos das tradicionais rodinhas masculinas, ou seja, ficávamos nos cantos, tanto da igreja quanto do restaurante, falando besteiras, mas no sonho existia um ingrediente a mais, o de cada um cheirar e lamber suas próprias rabetas. Logicamente que lambíamos os próprios sacos também. Aquilo tudo foi muito divertido de se ver... Ou não.
Mas vejam só que maluquice, quando eu estava para ficar doidão por causa desta maldita tosa higiênica, comecei a me debater, pois sentia frio, muito frio... Coceira também. Tudo por causa da tosa, acreditava nisso. Contudo, quando realmente percebi o que se tratava eu estava quase pelado, efetivamente falando. Mas não por causa de uma tosa ou qualquer coisa parecida, descobri que estava com as calças arreadas, fora do saco de dormir e fora da barraca... Barraca? Como assim? Pensei um pouco ou pelo menos tentei pensar como isto poderia acontecer. Estava completamente confuso, pois nem lembrava como é que tinha ido parar num acampamento. Enquanto isso tentava arrancar um lado do fone de ouvido que tinha se enfiado no ouvido. E que tocava alto, claro. Afinal de contas ele embalou a dança dos meus amigos cachorros no baile de casamento.
Quinze minutos, ou um pouco mais que isso, foi o tempo que levei para conseguir tirar o fone, aliás, os dois fones das profundezas de um dos meus ouvidos apenas. Como consegui isto? Não faço a menor ideia. Bom, por sorte tocava umas músicas bacanas do The Magnetic Fields. Sorte eu também ter acordado, o pessoal que estava comigo no bate-papo já começava a se cheirar, tipo, um cheirar a bunda do outro. Confesso que este tipo de coisa não me agrada... Mas devo admitir que tal situação foi, além de inusitada, muito engraçada também.
O tempo foi passando e eu me encontrava no escuro sem saber direito o que se passava. Mas logo alguma movimentação por perto das barracas começou. Pessoas falando em outros idiomas, dialetos e grunhidos foram tomando o lugar dos grilos, cigarras, morcegos e corujas. E assim que amanheceu a Olga se levantou e me ajudou a levantar da pedra onde eu estava sentado. Ajudou-me por que simplesmente não conseguia sair daquela situação sozinho, dores e travamentos haviam assumido posições importantes em meu corpo.
Contudo, ela me ajudou a levantar entre sorrisos, risos e gargalhadas. Por qual motivo? Segundo ela, teria tido um sonho engraçado. Sonhara que eu caminhava por uma rua carregando uma grande melancia, e esta melancia tinha os olhos, nariz e boca cortados, como em abóboras preparadas para o dia das bruxas. Contudo, além da face criada na casca da fruta, este vegetal contava com longos braços e pernas, tipo boneca de pano. Agora, o mais estranho foi saber que eu carregava uma melancia peidante... Sim, ela peidava tanto que mais parecia um caminhão FNM desregulado subindo uma grande rua qualquer. Estranho? Também penso assim, mas não era tudo, ela ainda ria também, e muito. Parecia um saco de risadas.
Bom, o dia ainda estava começando, e pelo que pude perceber não seria nada fácil. Devido ao cansaço havia esquecido do que se tratava e onde estava, mas à medida que o tempo foi passando lembrei ou fui lembrado o porquê de estar naquele acampamento. Já nem sabia quanto tempo estava naquela trilha. Meus pés, digo, meu pé doía, pois o outro é de plástico, não sente dor nenhuma. Pelo menos isto. Mas tudo bem... Deixe-me resumir um pouco, pois tenho a impressão que o negócio está embaçando cada vez mais.
Um pouco mais de caminhada e meus olhos ameaçaram pular de suas órbitas, tanto de cansaço quanto de êxtase. Mal podia acreditar, mal podia sentir... Minhas pernas, minha cabeça e meus pulmões. O coração eu sentia por que ele chegou a se mostrar no momento que resolvi dar uma cuspida no mato. Como foi que se mostrou? Oras, entalou entre os dentes. Como foi que ele voltou para o lugar certo? Tive de engoli-lo com um pouco d’água. Mas antes tiveram que desentalá-lo com a ajuda de uma lanterna. Fizeram tanta força que se demorasse um tanto mais me empurrando e me socando e me puxando daquele jeito que arriscaria eu engolir o coração com mais alguns dentes junto. Fora ter que ouvir a gritaria que fizeram por uma coisinha tão comum que foi esta.
Momentos após as coisas terem voltado ao normal... Normal... Como se isto existisse. Bom, umas passadas mais e dei de cara com cidade sagrada de Machu Picchu no Peru. Uma loucura. Afinal de contas, após dias andando no meio do mato uma ora qualquer chegaria certamente em algum lugar... Dei sorte; parei num lugar bacana. Mas tinha algo de errado acontecendo, mas não sabia o que era. E quando estava para entrar na cidade uma grande quantidade de mosquito resolveu me atacar até que tropecei não sei onde e caí feito um saco de batatas.
De repente acordei no chão da sala com um cobertor enrolado no pescoço, pelado da cintura para baixo e com os pés calçando ou vestindo dois travesseiros como se fossem botas de caminhada. O cachorro que estava deitado na minha cabeça levou um baita susto com meu grito, e eu me assustei quando senti que tinha alguma coisa peluda, pulguenta e pesada achatando minha cabeça, evidentemente... Ai, ai, sabia que comer e beber daquele jeito não poderia dar um bom resultado.
Mas, agora que acordei vou até a cozinha ver se ainda tem um pedaço do pudim. Estou sentindo um gosto tão estranho na boca, não sei se é pelo fato de ter comido e bebido daquele tipo ou é por ter acordado com a barriga do cachorro dentro da minha boca... Falando em cachorro, estou sentindo uma coceira imensa num dos ouvidos, e parece até que caminha de quando em quando... Será que alguma pulga invadiu meu ouvido? Seja como for terei de esperar se esta coceira passará ou não, por que se precisar de ajuda de alguém aqui de casa para isto estou perdido, o pessoal está com os olhos vidrados na tevê assistindo um programa de anatomia craniana. Quem quer saber que os ossos acessórios do crânio são ossos supranumarários, ou que são inconstantes, ou independentes e localizados entre os outros ossos do crânio.
Tudo bem, deixá-los-ei quietos, com seus olhos esbugalhados assistindo artigos utilíssimos para nossas vidas. Que farei eu? Oras, já disse, comerei um ou dois pedaços de pudim e logo mais ouvirei algumas músicas para relaxar do Budapester Klezmer Band que meu neto baixou dia desses. Mas logicamente que para acompanhar as músicas assistirei uns filminhos de sacanagem pelo computador. Afinal de contas, não é só de pão, guerra e vinho... E pudim que se vive um grande homem.
Está é uma cena de meu sonho, parece que o noivo e os padrinhos estavam se divertindo um bocado com os saltos espetaculares e sem freios, as lambeções desmedidas em locais próprios e alheios e nenhuma sensura... Que loucura.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 16:32 [+]
...
Segunda-feira, Setembro 14, 2009
As semanas com a suposta nova gripe têm tirado o sossego de muitos bon vivants da cidade, eu inclusive. Não consigo me sentir tranquilo com as dezenas, ou centenas de pessoas parecendo médicos com o desfile quase que descabido das horripilantes máscaras cirúrgicas. De repente, também, um outro produto ganhou status em nossa sociedade moribunda por natureza, o álcool em forma de gel. Produto que servia apenas para visitantes usar nas mãos momentos antes de pegar crianças recém-nascidas em maternidades, e também, para substituir a versão clássica, em líquido, que empregadas domésticas costumavam usar excessivamente para simples limpezas, como tirar o pó de mobílias e de aposentados sentados, por exemplo.
Sei de uma coisa, tive que radicalizar nas minhas ações. Os proprietários dos botecos da região onde moro andam confusos... Mais que o normal, pois, não sabem se servem álcool em gel para os clientes comerem ou se dão a eles vodca ou uísque para lavarem as mãos. De qualquer forma, deixei de me aventurar nestes ambientes. Fiquei sabendo que tem gente passando mal com o consumo descabido de produtos descabidos para humanos. Antes que alguém diga que estou exagerando perceba a histeria quase coletiva que está acontecendo, clientes de algumas charutarias da cidade estão usando de criatividade, ainda que da maneira mais ridícula possível, as tais máscaras cirúrgicas estão sendo sumariamente furadas na região da boca para que os charutos possam entrar sem a necessidade de tirá-la da cabeça no ato do fumo. Confesso que fiquei nauseado nas duas vezes que vi este tipo de coisa. Eu disse que era um absurdo.
Julgo que todos ficaram neuróticos. Num dos aviários que tem perto da Praça Rui Barbosa até os animais estão usando a máscara. E movido pela curiosidade perguntei ao proprietário do estabelecimento o porquê desta ação. Disse-me ele que estava com medo de que esta possível nova gripe atacasse os passarinhos, e, com isso, viesse acontecer uma nova mutação, e a partir daí voltasse a gripe aviária ainda mais forte que a versão anterior. Sei que este assunto é um terreno pantanoso de se pisar, e o assunto é um prato cheio para os adeptos das famosas teorias conspiratórias, mas ele pode ter alguma razão em cultivar este medo. Mas de qualquer forma, não deixa de ser maluquice.
Enfim, maluquice ou não, vou parando por aqui. Está na hora do meu remédio, pois não consigo parar de espirrar. Segundo a Olga só poderei voltar para casa quando decidir comprar esta merda de máscara cirúrgica. Se depender de mim para este tipo de coisa nunca mais o pessoal de casa verá minha cara. Mas se depender dos pudins e outros quitutes até faço uma forcinha para desmanchar minha birra, e aí então posso até comprar este ridículo item de segurança, ou proteção, para amarrar na cabeça. Se bobear vou até o quartel onde servi e peço uma máscara contra gases, daquelas arretadas, e aí quero ver eu pegar alguma gripe, ou passar para alguém. Como disse: o negócio é radicalizar. E para lavar as mãos eu quero usar só uísque 12 anos... No mínimo. Álcool em gel? Só se for para matar piolhos ou pentear os cabelos, mas este é o tipo de coisa que nem tenho mais.
Sem dúvida algumas ações são de revirar o estômago. Portanto, enquanto estiver em voga esta nova gripe, fumarei meus charutos em casa mesmo.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 12:42 [+]
...
Quinta-feira, Agosto 20, 2009
As novas tecnologias trouxeram ao Homem grande facilidade em seu cotidiano, tudo, ou quase tudo se resolve com mais rapidez, porém, ao mesmo tempo, surgiram distúrbios psicológicos que até então nunca se ouviu falar. O tempo mais curto para se resolver os problemas do trabalho foi compensado por uma quantidade maior de serviços a fazer, tudo isso no mesmo espaço de tempo que já existia anteriormente. Parece justo quando se analisado pelo ponto de vista tempo. Contudo, as pessoas apenas têm ciência de que encurtou o tempo para a conclusão de seus serviços, mas esquecem de que o nível de estresse continua o mesmo, além do desgaste intelectual para o desempenho deste.
Sabendo-se que esta carga, que em princípio parece menor, mas na realidade não, mais atividades surgiram para preencher o espaço tecnicamente ocioso nos escritórios e outras... Parece-me que já foi escrito isto... Enfim; para resolver este problema o Comendador Baltazar resolveu escrever o livro UM MINUTIMEIO DE SABIDORIA. Esta obra tem a finalidade de proporcionar ao leitor uma profunda sensação de pura perda de tempo. Alguns professores universitários já encomendaram exemplares deste último trabalho literário. Disseram que tentariam explicar aos seus alunos os efeitos da pós-modernidade em relação ao mercado de trabalho, e depois, é claro, cobrar dos mesmos alguma coisa deste livro na prova.
O sexto livro do Baltazar vem recheado de novidades; a capa tem uma imagem holográfica de uma situação causada por um ambiente que necessita de melhorias... Ah! Deste efeito... Deste caso que o livro resolveu tratar. Continuando, pede-se para que não observem esta capa sob o sol forte, pois pode causar cegueira, ou insanidade mental, ou as duas coisas juntas. E na compra deste exemplar a pessoa receberá um disco compacto (CD) com fotas pretibrancas (fotografias em preto e branco) de todo o processo de produção disto, melhor dizendo, desta obra quase educativa, quase literária.
Assim sendo, aproveitem o lançamento, comprem apenas o original, mesmo por que, dificilmente encontrará algum maluco que faça cópias piratas deste que é considerado um magro na história das letras no Brasil. Bancas da Rua XV estarão, no próximo sábado, abertas apenas para a venda deste novo livro do Comendador Baltazar. A Banda Marcial da Polícia Militar confirmou presença e disse que tocará por três horas seguidas músicas que nada têm haver com um lançamento de livros.
Funcionários que ainda não receberam seus exemplares do livro Um Minutimeio de Sabidoria de seus patrões estão apreensivos, alguns coloram suas barbas de molho, e outros, os que não possuem barbas, colocaram seus cabelos de molho.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 18:17 [+]
...
Segunda-feira, Junho 29, 2009
-- Pois então, caros telespectadores, começa agora e mais uma vez o programa Instante Cooltural. E o programa de hoje traz dicas quentíssimas de filmes para você desfrutar enquanto se esparrama naquele sofá encardido que adorna a estúpida sala de sua casa. Dizia assim o apresentador do alto de seus quase três metros de altitude. Logicamente que estava acompanhado de sua careca. Careca esta que era relativamente obscena, pois era rachada ao meio, devido uma pequena navalhada. Consequência de uma discussão que tivera tempos atrás com um travesti atrás da catedral. Bom, Tião Bananão, como era conhecido, tinha seus olhos miúdos, vesgos e remelentos, ainda assim fazia sucesso em rodas de putas e bocas de fumo. E era constantemente convidado para desfilar em carro aberto no desfile de Sete de Setembro ao lado de algum político que busca popularidade.
Após uma ridícula vinheta de abertura aparece Tião Bananão sentado num banquinho de pernas moles, quase caindo para o lado e dizendo coisas que ninguém gosta de ouvir para o assistente do operador de câmera que o filmava no lugar do operador de câmeras que havia se ausentado por motivos emergenciais... O motivo? Segundo a informação que fora dada o profissional teria ido ao sanitário para... Sei lá.
-- Ok, ok, voltamos, heim. Mas então, a dica de filmes que tenho para dar é seguinte:
Disse assim o tal do apresentador enquanto, novamente, uma vinheta mais ridícula ainda anunciava as novidades. E após toda a estúpida encenação surgia um BG altíssimo para anunciar o anúncio anteriormente anunciado. Sob a luz fraca o infeliz do Tião Bananão gritou os primeiros nomes dos filmes. Por que gritou? Pelo fato de não conseguir se escutar naquele inferno musical que comumente serve de base para seu inútil programa.
1º filme: O CACETEADOR DE VIRGENS ARREPENDIDAS: Dramático filme policial onde um grupo de escoteiros se envolve num acidente automobilístico onde eles (escoteiros), guiavam turistas estrangeiros para verem alguma coisa pouco, ou nada interessante, quando, de repente, a Besta deles bate de frente com a Kombi de gordinhas irmãs do convento de Nossa Senhora de Alguma Coisa. Aturdidos com o acidente, todos, inclusive um bicicleteiro (entende-se por ciclista de pouca ou nenhuma habilidade ciclística) que passava há meio quarteirão do local, e que caiu num bueiro, veem um vendedor de cachorro quente com cara de poucos amigos estacionar seu carrinho bizonho num determinado ponto da calçada, saca de seu cacete e caceteia todos que lá estão. Para combater este maníaco é chamada a polícia, e no lugar de toda uma corporação a policial linha dura, Eleanora Bombanella, aparece e mostra como dar conta do recado.
2º filme: A LENDA DO PUNHETEIRO SEM CABEÇA: Um clássico do terror banana. Rodado com orçamento baixo conquistou fãs antes mesmo de sua conclusão. A crítica especializada aclamou o diretor por sua irreverência, desprendimento para com as coisas que o cercavam e principalmente, por sua porralouquice descomunal. Após as filmagens os atores doaram parte de seus cachês para uma instituição de luz vermelha.
3º filme: MISTER PUSSY - O HERÓI SEM FRONTEIRAS: Destemido por combater o Bom Combate em qualquer situação. Empolgante e recheado de emoções, Mister Pussy dá uma lição de sabedoria peniana. Com temas controversos e estúpidos, que pairam sobre as cabeças juvenis, ele alerta para a facilidade com que o Ser Humano tem para fazer cagadas. Eletrizante do começo ao fim da película.
4º filme: XOTA E XANA - AS GÊMEAS DO BARALHO: Trambicagens são com elas. Verdadeiro filme sobre crupiês que se engrupem em grupos. O filme se passa em cassinos onde todos querem comer todos... Pelos bolsos. Mas a astúcia destas irmãs vai mais longe, para vingar a morte de um amigo, que era michê, elas encaram as mais fortes emoções. Passando-se por acompanhantes de luxo ela se infiltram no cassino onde o amigo teria trabalhado. Sem dúvida é um drama de tirar o fôlego. Atentem para a cena onde acontece uma briga de toalhas de papel entre elas e os capangas do traficante que atua na área. Sem dúvida, é de tirar o fôlego mesmo. Aliás, a cena ganhou o prêmio Bolas de Ouro, tamanha dramaticidade e autenticidade.
5º filme: O CANÁRIO DA MORTE (The Big Fucker Or Anything That): Aventura na selva de Bonga-Bonga em que o Silvaman, sendo ele um silvador e um sulcador nato, silvava pelas tardes quentes de sunga em busca de uma suindara. Contudo, na afã busca pela ave descobre que está de sunga na mão e perdido em algum ponto desta selva aterrorizante. Mas as coisas só complicam de verdade quando descobre a caverna onde se esconde um baita de um canário devorador de rachas (pequenas presas que habitam os organismos vivos). O título original deste triller é estranho, mas nada que uma bebidinha antes de começar a assistir ao filme. Mesmo por que é preciso este tipo de manobra para aguentar as duas horas da trama que se desenrola, ou se arrasta, tanto faz. Vale mais pela paisagem e pelos efeitos visuais do que outra coisa.
-- E para completar com esta seção de dicas aí vai mais uma. Disse assim Tião Bananão se agitando como nunca, porém, agora de pé, pois o banquinho do início do programa se quebrou em alguns pedaços. O motivo? Simples. Lascou o móvel no lombo do assistente do operador de câmera. Então, logo após ter coçado a nuca, a orelha esquerda e o joelho direito disse: -- Como ia dizendo, para a Seção Bofetão deste mês mostro o filme: O Paraíso Tropical da Feiosa Sideral... Não! Este já foi. Por incrível que pareça este mês terá seção corrida, dupla, dobrada... Oras bolas, como queiram. Os filmes desta seção especialmente dupla serão: A Virgem do Sétimo Dia (The Sacred Pussy It Was) e Longos Tapas Loucos, do diretor Azedinho de Azevedo, O Estranho... Ã... Mas é isso, vou nessa. Tchau para vocês e até o próximo programa. Disse assim o apresentador enquanto ajeitava as calças na região da bunda.
Durante o programa percebi que podia ter ficado sem estas inúteis e estúpidas informações. Até pensei em desistir, mas depois que abri uma garrafa de vinho pude aguentar um pouco mais. Aliás, pude assistir a todo este programa sem xingar muito. Até consegui ficar entusiasmado com as dicas passadas. Inclusive, anotei alguns nomes de filmes para procurar em outro momento. Evidentemente que, se assim viesse assistir algum destes títulos, chamaria minhas latinhas de cerveja para se sentarem ao meu lado.
Poderia chamar meus amigos também, claro que sim, mas isto é difícil, pelo simples fato de que o Pereirinha, num evento como este, fica louco; não para quieto. Arrisca até ele se atirar pelas janelas. O Azambuja pode ter um treco no coração se tiver que ficar muito tempo parado. O Adalberto também é um outro caso perdido, pois apenas assistirá ao filme sem entender a história. Não que ele seja um retardado ou coisa parecida, mas como ele mandou embutir o aparelho de som dentro da cabeça, provavelmente tocará alguma coisa que o deixe com os pensamentos longe... Tudo bem, vez por outra também fico assim. Mas é isso, agora preciso descansar um pouco. E depois, mais tarde, quem sabe, ligarei para algumas vídeos locadoras para ver se encontro os filmes que o Bananão indicou... Este sujeito realmente é muito chato, mas tudo bem, não ligo para chatices alheia. Contudo, antes de descansar ouvirei um pouco dos clássicos de Ray Conniff até pegar no meu soninho.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 01:11 [+]
...
Terça-feira, Maio 26, 2009
Quando nossas tolas vidas conseguem chegar aos finais de semana temos a sensação de que tudo que vivemos foi em vão. O vazio nos invade a mente para atormentar. O comércio, pelo menos a grande maioria deles, fecha suas portas, consecutivamente muitos cafés, casas de chá e outras coisas mais também resolvem seguir este exemplo, ou seja, serrar suas portas. Atividade esta que causa grande desespero em nossas almas vazias. E quando isto acontece devemos ocupar nossos corpos moribundos e nossas mentes dementes com alguma coisa útil para se fazer, afazeres domésticos, por exemplo.
Pensando desta maneira pensei em algo que pudesse me mexer, exercício físico às vezes cai bem na idade que estou. Mas não muita coisa, pois também não sou nenhum Ultraman, Ultraseven ou Superman. Mesmo por que estas merdas não existem. Então, isto quer dizer que não devo me espelhar em merdas, ainda mais naquelas que não existem. De qualquer forma tinha que me empenhar numa atividade qualquer. Cortar grama seria uma boa ideia, restava saber que grama cortar, afinal de contas moro em apartamento.
Mas observando da janela da sala pude ver a existência de um pequeno jardim no prédio onde moro... Bingo! Pensei. Seria ali mesmo o alvo de minha ação. Rapidamente pus uma roupa mais adequada para estas atividades, em seguida saí pelos corredores feito uma criança tresloucada quando ganha as ruas depois de ficar horas trancada em casa para fazer a lição da escola. Chegando na portaria e com a língua de fora balbuciei ao rapaz que fica sentado o dia inteiro na cadeira, que ora dorme, ora vê a movimentação dos moradores entrando ou saindo e ora não vê nada de novo, pois este volta a dormir... Ã... Ah, sim, disse que iria cortar a grama daquele horrível jardim e ele concordou.
O próximo passo seria encontrar o lugar onde guardam os apetrechos adequados e específicos para esta ação. Uma hora se passou e ainda me encontrava perdido pelos quartos, salas e saletas que fazem parte da portaria. E quando estava quase desistindo encontrei a porra do cortador de grama, que estava embaixo da escada que leva ao porão, ou, ao outro andar do estacionamento. Tudo bem, a primeira parte do desafio fora vencido. A parte seguinte seria cortar a grama propriamente dita... Ah! Uma garrafa com água viria a calhar, pois estava ligeiramente quente naquela tarde estupidamente modorrenta.
Antes de ligar a máquina percebi que a água não seria a bebida adequada para aquele momento, teria de ser cerveja. Afinal de contas, é muito melhor trabalhar com emoção, ou com a sensação de tudo estar indo muito bem. Bom, na sombra já estava uma caixa de isopor contendo algumas latas de cerveja, então era hora de trabalhar. Assim que liguei a máquina algo inesperado aconteceu... Algo realmente inesperado aconteceu... Não era para ela dar aquela arrancada violenta e passar por cima da minha latinha. O que aconteceu com a lata? Puta que pariu! Foi cortada em quinze pedaços... No mínimo.
O negócio seria cuidar melhor das coisas antes que coisas erradas voltassem acontecer. Tudo bem, costumo ser atencioso. Contudo, lá pelas tantas, quando tudo parecia ir bem um bem-te-vi surgiu na grade que cerca o terreno do prédio e começou a cantar loucamente. Aquilo me atraiu os olhos, claro, mas aquilo não foi o problema, nem no momento que meus olhos viraram afoitos em direção da ave. O problema foi que nesta pequenina distração eu passei com a máquina nos pés do horrível anão que adorna, ou que fica no jardim. A consequência disto? Oras, o óbvio, cortei todas as unhas e todos os dedos dos pés do boneco infeliz... E de quebra foi outra latinha para as cucuias.
E as coisas não pararam por aí, lógico que não. Quando eu pensei que os desastres tinham terminado surgiram outros mais. A máquina, descontrolada, resolveu dar um trato nas coisas que estava de bobeira pelo terreno, como vasos, tapetes e o próprio cabo de alimentação de energia... Onde estava eu? Tentando livrar meu pé de plástico, mais a minha caixa de isopor e o que tinha dentro dela da destruição completa, oras. Só sei dizer uma coisa, que a situação não ficou lá muito bonita na frente do prédio. Mas ainda bem que ninguém viu as barbaridades feitas por mim. E quando quis dizer ninguém é por que ninguém viu mesmo, nem mesmo o porteiro... Ele estava dormindo ou qualquer coisa assim no momento que ia pedir a máquina... Sei lá... Tanto faz também.
Assim sendo tratei de embrulhar aquela porcaria toda de cabos partidos, vassouras cortadas ao meio e outras coisas que foram debulhadas pelo cortador de grama, num grande saco de lixo e joguei embaixo da escada do porão, ou no andar da garagem do piso inferior, como queiram. E depois fiquei sem saber o que fazer... A grama... Nem pensar. Varrer meu apartamento talvez. Mas da última vez que tentei fazer este tipo de coisa não terminou muito bem, para mim, claro. A Olga não tostou nem um pouco do meu serviço, e então terminou como tinha de terminar, com algumas vassouradas nas pernas, nas minhas, logicamente.
Mas sabe que às vezes este tipo de atitude é válida, pois ajuda ativar o sangue dos membros inferiores... Principalmente agora, nos dias de frio, pois esquenta tudo. Veja só que coisa boa. Quanto ao episódio da grama, sei lá o que aconteceu depois. Sumi. Nem quis ver no que ia dar. Afinal de contas, coisa boa é que não ia dar. E sinceramente falando, não tenho paciência para barracos. Digo isto pelo fato de que a síndica é uma verdadeira pessoa pé-no-saco, e certamente faria um escarcéu pelo ocorrido. Mas tudo bem, desculpas não faltarão para encobrir este caso, e também é isso, deixe-me então aproveitar o tédio a soprar nos meus ouvidos qualquer canção besta e deixar que o dia se acabe logo.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 12:43 [+]
...
Terça-feira, Maio 05, 2009
Lembro-me da época em que eu era bem mais novo, nem havia conhecido a Olga ainda. Era na época da porralouquice, algum tempo antes de entrar para as Forças Armadas. Gostava de viajar ao litoral. Gostava de sentir a vagabundice tomar conta do meu eu, de beber sem limites, feito carro sem freio na descida. Logicamente que tais atitudes eram acompanhadas de perto por uns poucos amigos que tinha naquele tempo... Não, não era o Azambuja ou o Pereirinha ou o Beleleu. Ainda não os conhecia. Mas o Adalberto sim, na verdade era ele quem organizava e esquematizava o tipo de música que deveríamos ouvir durante as viagens ou para qualquer lugar que fossemos, pois, o toca-fitas era dele, naturalmente.
Certa vez, numa dessas idas desmedidas ao litoral, conheci a Cidinha, filha mais velha das cinco meninas da dona Cidona e do seu Cidão, que eram vizinhos de uma casa que alugamos uma vez numa praia qualquer e em uma temporada qualquer. Continuando, Cidinha parecia uma deusa, dessas que ninguém nunca viu a cara e morre de medo de ver um dia. Seu corpo escultural e sensual lembrava um vaso sanitário. Seus cabelos... Sim, ela os tinha. Gostava de usar brincos como toda jovem, contudo, os que ela usava pareciam mangueiras de jardim, e que se agarravam com dificuldade naquelas que mais pareciam palmilhas de um sapato velho do que propriamente orelhas. Todavia, o que realmente chamava a atenção era seu jeito de andar. Com graciosidade ela caminhava parecendo um vendedor de batata frita que marcha o dia inteiro pelas areias quentes da praia com seu tabuleiro repleto daquelas porcarias encharcadas de óleo rançoso, velho, nojento.
Numa dessas tardes onde a bebedeira invade a alma e toma conta do cabeção, Cidinha, que era comunicativa, aliás, era tão comunicativa que mais parecia um radialista narrando uma partida de futebol, ou ainda, um paraninfo empolgado, quase eloquente e chato contando dos pormenores que o levaram a fazer aquele discurso bisonho e enfadonho... Ã... Ah, sim, a Cidinha, pôs-se a matraquear coisas sem muito ou quase nenhum sentido para mim, mas como eu era um garotão selvagem e estúpido, bem como todo garotão, nem dei pelota para sua verborragia. Apenas me senti hipnotizado ao ver seus lábios abrindo e fechando sem parar. Aliás, lábios estes que mais pareciam duas imensas vinas tingidas de vermelho... Ã... Tudo bem... Taí um negócio que gosto, de vinas.
Bom, para encurtar um tanto, sentindo-me hipnotizado e ao mesmo tempo tonto com toda aquela falação desmedida, agarrei aquela coisinha tagarela pelas mãos suadas ou sebentas e a levei para um terreno baldio. Estava indo tudo muito bem, tudo muito fácil quando, de repente, resolvi baixar a bermuda e a calcinha da jovem; deu vontade de fazer... Sei lá o quê. Talvez fugir, por exemplo. Tal cena foi no mínimo estranha; aquelas nádegas, no primeiro momento, puseram-se a gargalhar de mim, depois gritaram pelos nomes das irmãs da miserável da Cidinha... Ô bosta! Perplexo com tudo aquilo não pensei duas vezes, caí fora daquele lugar. Se bem que, pensar era a única coisa que não fazia naquela época, mas o bom senso, o meu bom senso gritou a plenos pulmões para eu cair fora da situação em que me encontrava o quanto antes. E logicamente obedeci sem contestar.
Esperto que sou sai em disparada pelas ruas sem olhar para trás. Corri feito galinha quando esta corre na frente de algum carro antes de ser atropelada. Naturalmente não fui atropelado, mas isto só não aconteceu por um pequeno detalhe: o carro que vinha atrás de mim era do pai de um dos meus amigos... Do Carequinha... Não! O Carequinha não era o pai de um dos meus amigos... Muito menos o famoso palhaço. Era simplesmente o meu amigo. O pai dele era conhecido como o Carecoso... Este não era o pai do palhaço, mas do meu amigo; que confusão. Ah, que dirigia o automóvel era o meu amigo, o Carequinha
Logo descobri que o Carequinha também fugia, não só ele como a turma toda. Por quê? Simples, enquanto eu fugia, o alarme nadegal da Cidinha chamou atenção de todo mundo no quarteirão. O Adalberto, o Carequinha e o Alfredão (este mal chegava a ter um metro e meio de altura), que naquele momento faziam campeonato de cuspe à distância, se assustaram ao ver o velho Cidão correr de cueca, chinelos e espingarda na mão escorregar em suas nojeiras sobre a calçada e cair de costas no mar de cuspe. O velho ficou um... Virou um... Sei lá. Ficou louco, surtou, espumou de raiva. Mas também não era para menos; sair no meio de uma cagada para acudir sua filha que estava enfiada em algum lugar onde ninguém sabia, e depois ainda cair numa imensa poça de cuspe... Putz! Até eu ficaria assim.
Assim sendo o senhor Cidão, que deu lugar ao monstro Cidão, pôs todo mundo para correr com sua espingarda de sal que atirava para tudo quanto era lado. Não sobrou nem rato nos esgotos, sumiu tudo. Apenas o grito histérico da bunda da Cidinha era ouvido pelas ruas. Um tempo se passou e outro tanto de tiro e grito retumbou pelas montanhas que cercavam aquele lugar terrível. Qual seria o motivo desta vez? A rapaziada ainda tinha de voltar até a casa para pegar suas tranqueiras e o carro, logicamente. Então, aquele único minuto que permaneceram na casa bastou para se amontoarem com toda a bagagem no carro e caírem fora do imóvel onde estávamos hospedados. Quanto a mim, fui interceptado por eles enquanto corria feito um desesperado numa rua qualquer, como falei há pouco.
O resultado desta aventura foi que, muito assustados com toda esta correria, ficamos um tempo sem viajar. Para aquela praia, que não sei qual era, nem voltamos mais. Bom, talvez até tenha voltado, mas se isto aconteceu foi em outras condições e depois de muitos anos. Depois entrei fui servir a Pátria e perdi contato com alguns dos meus amigos. O único que continuou comigo foi o Adalberto que, aliás, creio até que este foi o motivo principal para deixá-lo do jeito que é hoje; estranho, fechado em seu mundinho musical. Mas, tudo bem, também gosto de ouvir músicas e de viver plenamente o meu mundinho.
ESTA POSTAGEM EU DEDICO AO MEU GRANDE AMIGO EMERSON. DESCANSE EM PAZ MEU CARO.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 00:26 [+]
...
Segunda-feira, Março 02, 2009
Dia desses, enquanto ouvia umas músicas de Marc Ribot y Los Cubanos Postizos, peguei - me recordando de minha infância, das brincadeiras mal elaboradas que eu inventava e que sempre terminava com alguma outra criança chorando. E quando isto acontecia, ou seja, sempre, a coisa também não terminava boa para mim. As idéias dos cortes de gastos (chineladas, tapas ou chutes) sempre partiam das empresas privadas (pais das outras crianças). Contudo, toda e qualquer licitação era vencida pela empresa estatal (meus pais). A concorrência não era párea para os argumentos da estatal, que, por um acaso, era muito forte neste setor. Mas por ironia do destino, o produto (eu), em vez de ter rendimentos acabava depreciado, muitas vezes até apresentando defeitos (escoriações e cicatrizes), antes mesmo de ir ao mercado (vida própria).
Ã... Deixemos de metáforas e continuemos com a narrativa... Ã... Então, lá pelas tantas lembrei da existência de minha avó por parte de mãe. Vovó Esmeraldina era tão suave, delicada, discreta e polida quanto uma porta batendo com força em tardes de vendavais. De sua língua áspera e ardida saíam cobras, lagartos e muita saliva. Saía tanta saliva que, durante uma longa discussão, por exemplo -- aliás, não sabia conversar, só discutir, pelo fato de seu gênio ser terrivelmente intragável -- ela ficava, não raramente, totalmente desidratada.
Vez por outra, enquanto eu observava da janela da sala as bundas e os seios das jovens a desfilar pelas calçadas, ouvia a minha avó arremessando e quebrando coisas nas cabeças das criadas ou na cabeça de quem fosse. Contudo, por algum milagre talvez, eu era seu protegido. Inclusive, era a única pessoa que gostava de mim. Tanto que até me oferecia de seu queijo nojento e ligeiramente esverdeado. Pelo menos umas lambidas dele, e nada mais. Coisa esta que ela tinha o triste hábito de fazer ao longo da semana. Comê-lo, efetivamente falando, só fazia nos domingos, e ainda assim uma pequena fatia para satisfazer suas vontades quase infantis. Logicamente que isto era repugnante, mas creio que esta experiência tenha me capacitado para enfrentar algumas adversidades que a vida às vezes nos proporciona.
Quanto a mim, só de pensar neste tipo de coisa, como lamber um queijo já lambido por dezenas de vezes, ou na remota hipótese de comer uma fatia do mesmo, causava-me e ainda me causa náuseas. A estratégia para não aceitar aquela oferenda sem ofender minha protetora era dizer que queijos deixavam-me com azias, fortes e estonteantes azias. Minha avó fazia cara de desconfiança sobre minha desculpa, mas felizmente nunca procurou esclarecer isto com meus pais. Quanto a meu avô, o marido dela, já era morto quando nasci. Mas diziam que era um sujeito glutão, bonachão. Vivia procurando algo para comer... Se tinha lombrigas não sei dizer, mas sei dizer que tinha um vantajoso e espaçoso bigode. Bigode este que lembrava muito com o que o Nietsche usava. Talvez o que diferenciasse um do outro fosse a aparência rotunda de meu avô, além, é claro, das migalhas e restos sei lá de quê, que sempre ficavam pendurados no bigodão tamanho extra grande dele.
As horas foram passando e quando dei por mim todos já haviam almoçado e comido suas devidas sobremesas. As lembranças ainda insistiam em me deixar fora de órbita... É certo que para isto nem precisa de muita coisa, mas, de qualquer forma eu me encontrava ainda mais fora de meu eixo. Contudo, a fome resolveu me atacar. Meu estômago estava à beira de um colapso, de tanto que gritava. Juro que num dado momento cheguei a ouvir este órgão declamar um versinho para chamar minha atenção... Bom, talvez não tenha sido ele, mas o fato é que era preciso comer alguma coisa.
Assim sendo descolei minha bunda da cadeira que estava sentado e me dirigi até a cozinha para ver se havia sobrado algo do almoço para mim. Apenas um mísero pedaço de queijo e com cara de poucos amigos sobrou na geladeira. Imediatamente lembrei da minha avó. Certamente tal visão me deixou sem apetite. E para quem está sem apetite o melhor a se fazer é cair fora daquele ambiente, ou melhor, de casa, pois nada tinha-se para fazer lá. Logicamente que não sem antes catar uma latinha de cerveja. Sabe, a ausência deste negócio às vezes me deixa com cara e com jeitão de sei lá o quê.
Bom, então cantarolei uma música dos Kaizers Orchestra e em seguida do Ray Coniff, depois desci as escadas, pelo menos um ou dois andares apenas, pois a labirintite já me ameaçava derrubar o resto dos andares caso insistisse nesta idiotice. Após completar o percurso com o elevador (a maneira mais sensata de se locomover dentro de um prédio em se tratando de subir ou descer os andares) resolvi que deveria ganhar as ruas. E assim que sai do prédio onde moro me deparei com o carteiro pedalando sua bicicleta ergométrica e com sua bolsa abarrotada de cartas, cartões, e outras porcarias mais à tira-colo. Tudo usado para facilitar seu trabalho, e claro, para fugir de cães e seus donos, ambos incrivelmente, estupidamente, desnecessariamente e desmedidamente raivosos.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 02:43 [+]
...
Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009
Sei que fiquei um longo período sem me manifestar por estas paragens. Sabe como são esses finais de ano, sempre a mesma coisa. Festas intermináveis, tumultuadas, barulhentas e chatas, em sua grande maioria. Então, assim que passou o Natal e o Reveillon, datas onde qualquer coisa é simplesmente impraticável para se fazer ou qualquer lugar impraticável de se frequentar, além de qualquer coisa, tudo muito caro, pensamos que sair de féria seria uma boa ideia. Logicamente que teríamos de ir longe, pois, ficar pelos arrabaldes não valeria à pena.
A Olga, sempre muito ágil e prestativa nestes casos, tratou logo de pegar o telefone, e de posse de mais de uma dúzia de números telefônicos nas mãos, pôs-se a ligar freneticamente para todos. Para você ter uma idéia tinha oferta até para casa na beirada do Piscinão de Ramos no RJ. E antes que qualquer pergunta absurda viesse se jogando de sua boca para cair nos meus ouvidos minha resposta foi NÃO! Claro.
Como ela estava totalmente decidida encontrar um canto para nos divertirmos insistiu por mais algumas horas ligando para tudo quanto é lugar. E quando começava a dar sinais de cansaço ela resolveu desistir de fazer a procura em pé. Posso dizer que o conforto de uma poltrona clareou suas perspectivas, foi aí que descobriu um apartamento em SC, no balneário de Enseada em São Francisco do Sul, mais precisamente falando. Tudo bem, pensei, as praias de lá são bacanas, continuei pensando.
Assim sendo, e sem muitos pensamentos, pois isto realmente pode malograr qualquer tipo de ação, amontoamo-nos no carro com as bagagens que íamos ou não usar, utensílios domésticos úteis e totalmente inúteis para a ocasião, mas a tradição reza que devemos sempre levar tranqueiras desta natureza nas viagens, e ainda tinha os chinelos, os sapatos, com e sem saltos, as famigeradas sandálias, as pantufas, uns estúpidos patins e as ridículas boias para os cílios postiços da Olga não afundarem no mar. Detalhe este que não seria de todo mal se acontecesse de fato... O quê? A perda dos tais cílios, oras. Mas... Enfim.
Então, depois de algumas horas andando, andando e andando com o fusquinha velho de guerra a ilha de São Francisco do Sul se manifestava ao longe com pequenos e encabulados pulinhos de alegria contida com a nossa chegada... Eu podia ver isto... Não estou mentindo. Se bem que minha labirintite se mostrava raivosa naquela manhã. Tanto que os fortes chiados nos ouvidos, quando isto acontece, forçam meus olhos, facilmente influenciáveis, a acreditar em qualquer coisa, inclusive acreditar que um policial rodoviário poderia atravessar a pista por cima dos carros... Sim! Flutuando sobre os carros... Mas deixe pra lá. Sei que isto é besteira.
Bom, alguns longos minutos mais tarde avistamos o tal prédio onde o apartamento fora locado por nós, no litoral de Enseada. Aviso desde já que não foi lá uma ótima escolha. E pude perceber isto ainda de fora do prédio, de dentro do fusca, que naquele momento tocava All My Loving dos Beatles no rádio. Logicamente que poderia acabar o mundo naquele instante, pois estava bem acompanhado pela melodia do (ex) quarteto de Liverpool.
Existia lá um leão-de-chácara (uma baita de uma gordona feia) cuidando, ou assustando, as pessoas que lá se hospedavam com a intenção de veranear. Tudo bem, não dou a mínima para leões-de-chácara. E pensando desta maneira só me dirigi ao apartamento depois de alguns pequenos problemas de falta de entendimento resolvidos. Que problemas seriam esses? Eu é que sei? Só sei que a gordona tinha uma parte neste problema, mas também nem quis saber. Sou do tipo de pessoa que não costuma se intrometer na vida dos outros.
E pensando desta maneira tratei de trocar de roupa assim que entramos definitivamente no dito apartamento. Contudo, vejam só vocês, nossas expectativas foram massacradas com a horripilante visão do lugar; louças sujas e talheres incrivelmente tortos que até pareciam ter pertencidos ao Uri Geller. Os travesseiros pareciam troncos de madeira vestidos com fronhas. Os colchões... Bem, os colchões até que eram bons. O sanitário parecia estar com boa cara; uma certa limpeza duvidosa para enganar a torcida e ainda, e talvez até a melhor parte, sem as tradicionais baratas que circulam pelo local na ausência de pessoas. Existe um detalhe que esqueci de mencionar: o prédio não tinha elevador, apenas escadas, e muitas delas, por sinal.
Tudo bem, tratamos de encarar aquela situação como encorajadora em vez de ficarmos nos lamuriando. Penso que tenha sido o melhor a se fazer. O primeiro passo foi trocarmos de roupa, pois o tempo no balneário estava quente. Troquei as roupas compridas pela bermuda, chinelos e uma camiseta. Claro que levar um chapéu foi providencial, pois nem me imagino torrando a careca no sol. Segundo a Olga e as crianças quando isto acontece eu viro um tremendo de um purgante. Não deixo ninguém em paz. Mas segundo a Olga e as crianças, novamente, esta história de não deixar ninguém em paz é uma constante, já faz parte da rotina deles. Então, na verdade, isto não mudou nada. Melhor assim, pois gosto de ser conservador.
Assim mesmo quis me cuidar para não torrar muito sob o sol, pois não gosto muito dele. Aliás, não nos damos muito bem. Então é melhor para ambos que não nos encontremos, e se isto acontecer, que um não olhe para a cara do outro e pronto, tudo se resolve. Pelo menos esta é a linha de meu raciocínio. No entanto, como sei que ele (Sol) não pensa, é sempre bom eu me proteger com bloqueador solar, dos mais potentes, óculos de sol e chapéu. Sem dúvida que para tudo ficar realmente certinho, completo, é preciso uma(s) lata(s) de cerveja nas mãos. Depois disto fiquei alegre e contente a desfrutar daquele panorama deslumbrante... Gente bonita, bundas desfilando de um lado para outro, crianças gritando sem parar, jogando areia umas nas outras, choros, tapas, mais areia voando para todos os lados... Que maravilha isso, heim!
Logo após a primeira torrada de pele resolvemos que seria prudente nos recolhermos para alguma sombra. Aproveitando tal decisão partimos direto ao primeiro restaurante que avistamos. Parecia bom, pelo menos à primeira vista. Pedimos uma porção de coisas para comer e beber, a mesa estava farta, muito colorido. Ótimo, pensamos. Então a falta de tato nos assolou por completo. Bancamos bestas sobre o alimento, de tanta fome que estávamos. Até o peixe que estava com gosto de qualquer outra coisa que não parecesse peixe estava bom. Do que ele tinha gosto? Talvez de rolha ou espuma, sei lá.
Tudo parecia ir bem até a noite que o mundo resolveu terminar em chuva. Chovia tanto que parecia que há qualquer ora iríamos nos banhar com as águas do mar dentro do apartamento. Bom, com as águas do mar talvez seja um pouco de exagero, mas com a cachoeira que despencava do forro acredito que sim. A pequena infiltração que o apartamento tinha quase se transformou em valeta de tanta pressão. Do banheiro brotava água do ralo como se fosse um chafariz. Estava até lindo de se ver se não fosse assim tão trágico.
Enfim, quase dois dias depois a chuva deu uma trégua e as águas internas pararam de jorrar. Contudo, o tal peixe do primeiro dia dava sinais de desconforto no abdômen em quem o comeu e até em quem não o comeu. Que loucura. O fantasma da diarreia assustava-nos como podia, mas somos ignorantes neste sentido, sendo assim não demos atenção a esta quizila. Continuamos assim com nossa atividade de farofeiro, levava-mos latas de cerveja, claro, de azeitona, de frango, de queijo, de espinafre, de ovo cozido e de um outro negócio que nunca vi antes, mas que apesar de ser azedo pra cacete até que era bom. O churro, o milho verde e o sorvete preferimos comprar na praia mesmo. Acreditamos que este tipo de coisa seja melhor comprar pronto.
Certo dia estávamos animados, apesar de nossos corpos dizerem que não, pois estes apresentavam algumas anomalias inexplicáveis. Porém, somos ignorantes neste sentido também, ou seja, não demos bola às anomalias. E para provar o que acabei de dizer compramos um passeio de barco no final da tarde. De bote fomos levados ao barco maior onde, abominavelmente histéricos de excitação, faríamos o passeio. Na ida tudo foi tranquilo, tudo aconteceu conforme esperávamos.
Quando chegamos numa das ilhas existentes no caminho, o piloto do barco parou para que o povo pudesse se banhar, caso alguém quisesse. Eu, esbanjando aventura pelos poros, não me contive, atirei-me lá do alto do barco até a água gelada. Água esta que parecia elétrica, pois assim que entrei nela tive a impressão de ser ligado. Tudo bem, a sensação foi boa. Boa, na verdade, não foi como adentrei no mar. Minha performance, ou seja, meu salto, estilo tábua, quase me traumatizou. Algumas dores surgiram assim que bati na água. Mas resolvi deixar estes probleminhas para depois, pois tinha emoções para viver naquela hora.
Algumas braçadas naquele mar gelado me deixaram animadão, tanto que resolvi voltar ao barco para mais um salto. E antes que resolvesse me atirar mais uma vez lá de cima percebi que havia um escorregador, então pensei na possibilidade de descer por lá para ver como era a sensação. Assim que me posicionei diante do escorregador me arremessei para baixo. Certamente devia ter me posicionado melhor naquele negócio antes de me aventurar, pois do jeito que parti caí na água, ou seja, sei lá como. O certo é que eu quase perdi meu calção na água desta vez. Pelo que puder perceber nas gargalhadas das pessoas que lá estavam a coisa foi assaz engraçada de se ver.
Porém existe aí, neste episódio, um detalhe interessante, não vi nem senti a menor graça no que aconteceu, pois, além do fato de eu quase ter perdido o calção no mar, fiquei com tremendas dores nas costas e ardências inimagináveis na pele causada pelo forte impacto do meu corpo na água, que por sinal, naquele momento parecia até que eu tinha batido minhas costas numa parede qualquer. Mas tudo bem, a brincadeira estava divertida por demais para que eu ficasse praguejando ou xingando à toa.
No entanto o tempo havia esgotado, era dado o momento de nosso retorno à praia. Entramos no barco, e assim que nos acomodamos o piloto deu a partida no motor e partimos. Talvez até tenhamos partido um pouco mais cedo que o previsto pelo fato do temporal que se armava no horizonte. Temporal este que não custou para nos apanhar no caminho de volta. A coisa toda parecia divertida no início, mas depois que as fortes rajadas de vento começaram, mais os grossos pingos de chuva o pessoal se alvoroçou e na sequência se calou. Mulheres com ou sem crianças foram convidadas a se alojarem dentro de um setor do barco. A macharada ficou no relento pegando chuva, vento e frio. Tudo bem, tem algumas coisas que servem bem para ativar o sangue do corpo. Penso apenas que não precisaria ser este tipo de coisa.
As cenas vistas foram dignas de cinema, trovões, raios, chuvas, ondas grandes, muito grandes até. Bom, só sei que a aventura serviu para houvesse uma descontração entre os passageiros, tanto aqueles que ficaram à mercê do tempo quanto aqueles que ficaram protegidos naquela micro-sala pouco iluminada e extremamente abafada. Tão abafada, aliás, que houveram alguns desmaios por parte da mulherada. Mas ao final tudo se resolveu. A chuva acalmou, o barco chegou perto da praia onda já havia o bote para nos buscar... Ufa! Que aventura... E nós, loucos de vontade de cair fora o quanto antes daquilo tudo e ir embora tomar um cafezinho feito na hora com um pão quentinho.
A tarde se foi, e nossos ânimos também. Nós já estávamos arriando nossos corpos. A vontade agora era de voltar para nosso lar, para nossa cidade. Além do quê, todos estavam, de certa forma, passando mal com todas aquelas comidas que ninguém sabe ao certo a origem daquilo nem a maneira com que foram preparadas. Barrigas e cabeças doíam naqueles últimos dias no litoral. Sinal de que tínhamos de voltar, e dar um tempo para nos esquecermos da areia grudando em tudo quanto é lugar, inclusive daqueles grãos que resolvem entrar, descaradamente, em nossos olhos ou bocas ou os dois juntos. E isto só para não citar lugares pouco ou nunca vistos pelo grande público.
Mas é isto, cansei de escrever, de pensar, de ir ao banheiro vomitar e cagar sem parar. E sabe de uma coisa? Estas últimas semanas têm sido de lascar para mim. E por esses dias, cansados de serem incomodados por mim, resolveram me levar ao pronto-socorro para tomar algumas injeções, uns três ou quatro soros, mais alguns remédios e outras coisas relativas ao ambiente médico. Tudo bem, foi necessário para minha melhora, pois a febre que me acompanhava havia danificado dois termômetros. Um deles, inclusive, chegou a estourar. Mas também não sei se foi bem a febre ou foi aquele movimento estranho que fiz durante uma de minhas idas e vindas ao sanitário. Ah! Mas isto, também, tanto faz.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 23:04 [+]
...
Quinta-feira, Novembro 06, 2008
Introdução
Tenha em mente apenas uma coisa enquanto estiver se dedicando à leitura deste manual; esqueça os pudores. A vergonha é o tipo de coisa, ou palavra, que deixa de existir para um aposentado. Este negócio de padrões, regras, tabus ou qualquer outra besteira que por ventura alguém venha te dizer, é pura inveja, pois agora (pausa para uma baforada no charuto comprado em lojas de artigos de umbanda) pois agora você pode tudo... Ainda que te digam o contrário, pelo fato de você não contribuir como dantes, ou simplesmente não contribuir mais. O ruim de tudo isto, e talvez seja até a pior parte, ser taxado de aproveitador de dinheiro daqueles que começam agora suas tolas e já fracassadas carreiras profissionais.
E após tanto diz que diz, faz que faz ou não faz este manual praticamente caiu de pára-quedas em seu colo frouxo e debilitado. Sendo assim aproveite-o, e faça valer seus direitos. A regra é válida àqueles que já completaram 60 anos de idade. Um exemplo disto é o tal do banco do ônibus dedicado aos idosos, a maioria das pessoas não gosta de ceder seu lugar a estes seres usurpadores de lugares, dinheiros e paciências, mas o fato é que você já faz parte deste time. Então pare de bancar o santinho, o comportado, o seguidor de regras, o bobão, o otário. O grande lance é (pausa para mais uma baforada no charuto vagabundo), o grande lance é (pausa para tentar acender novamente o charuto que se apagou não se sabe se foi por causa do longo espaço de tempo entre uma baforada e outra, ou se foi por causa da baba que escorreu até a cinza)... O grande lance é saber aproveitar a situação que criaram para você.
Tais direitos se estendem até o aconchego de seu lar. Todos sabemos que atualmente não se encontra mais tão aconchegante assim. Porém, anteriormente você era tido como uma pessoa bem quista, disciplinada, um exemplo vivo para a humanidade, e até como um tipo de herói. Todos sabemos disto também. Mas hoje você é visto como apenas mais um na família, um custo elevado para a sociedade ou para a humanidade. A vantagem, perante os outros que moram sob o mesmo teto que você é, sem dúvida, o tratamento diferenciado que recebe no momento das refeições; sempre come por último e sozinho, ou seja, a mesa é toda sua, desde que sobre alguma coisa para usufruí-la com esta exclusividade, claro.
Em vista da enorme quantidade de tópicos, ou itens ou seja lá o que for, criados ao longo dos tempos, selecionei uns poucos para servir de referência a você, leitor interessado em descobrir as maravilhas da vida desregrada e pouco agitada de uma aposentadoria (pausa para tentar acender novamente o charuto... sem chances; a coisa toda molhou com a boca enquanto esta vertia saliva. Definitivamente não deu certo de acender)... De uma aposentadoria justa ou injusta, por validez ou invalidez, certa ou errada... Enfim, de uma aposentadoria (e o charuto foi arremessado num pequeno vaso cheio de trincas que estava ao lado).
Eis aqui, então, as dicas, ou itens, pelo menos um pouco deles, que mencionei há pouco:
- Em fila de aposentado (banco, supermercado, farmácia e seja lá mais o que for) ninguém é de ninguém e todos têm o mesmo direito que você, portanto não adianta espernear a fim de facilitar tua vida. É para estes momentos que o manual foi criado, pois, se depender da habilidade dos atendentes, moribundos por excelência, para dar conta de todos que estão na fila, você certamente enfartará de raiva.
A dica é a seguinte:
Acenda um fio químico ou qualquer outra coisa que produza cheiros nauseantes. Logicamente que tal produto não pode ter um cheiro muito forte, por que senão corre o risco de todos caírem fora do lugar, inclusive você. E aí então teu plano irá por água abaixo. Lembre-se que a intenção é afugentar o máximo de gente que está na tua frente e NA FILA da qual você esteja. Continuando, aqueles que sobraram certamente já pensaram em fazer a mesma coisa que fez para diminuir a fila. Isto denota que são profissionais de fila... Ã... Bom, de duas uma, ou já estão acostumados com seus próprios flatos altamente aromatizados, aromas estes de baixo calão, ou andam equipados com máscaras de oxigênio próprias para estas ocasiões... Mas digamos que esta hipótese seja muito pouco provável de ser verdadeira.
- Em bares bacanas é difícil encontrar aposentados e coisa e tal. Normalmente jovens freqüentam lugares assim. As opções para os velhos acabam sendo os botecos de bairros ou aqueles onde são apinhados de peões de trecho. Mas quanto a estes são mais fáceis de evitar, pois geralmente estão localizados nas imediações de rodoviárias.
A dica é a seguinte:
Faça-se de desentendido. Se estiver com vontade mesmo de ir a um destes bares da moda ignore os seguranças que ficam na entrada. Na certa eles pensarão que você está procurando o filho(a) ou neto(a) naquele estabelecimento. Então te deixarão entrar. Bom, ignore os jovens que zombam da tua cara e ignore, também, os garçons que já estão te ignorando antes mesmo da tua entrada no lugar propriamente dito. Agora, se ainda quiser continuar lá dentro, e ainda, quem sabe, consumir alguma coisa, e, quem sabe também, fazer um charminho, só para dizer que está "tirando onda" dos que lá estão, crie um tumulto, mas para sua própria segurança, que não seja muito grande.
Tumultos muito grandes costumam sobrar cadeiras, ou o que sobrar delas, para todo mundo (pausa para comer uns amendoins). E isto (pausa para uma ou duas ou três tossidinhas, e qual o motivo dessas tossidas? Tentar tirar os amendoins que engataram na garganta)... Ã... E isto, definitivamente não é bom para você, pelo fato de que, se o pau comer pra valer tua estratégia de se dar bem no barzinho bacana irá, por mais uma vez, por água abaixo. A idéia é criar um tumultozinho apenas, coisa facilmente controlável, só para que você desenvolva um grau de intimidade com os que estão à tua volta, se estiver alguém sentado ao teu lado, claro. Caso contrário, se for para ficar isolado numa mesa ou num balcão sozinho tanto faz, pode provocar qualquer confusão e cair fora de lá. Só para ver a pancadaria de fora do boteco. Mas tem um detalhe: o melhor lugar para ver estes espetáculos fica do outro lado da rua. O espectador costuma ter uma ampla visão dos fatos e o que é melhor, está livre de levar uma cadeirada no lombo ou uma garrafada na cabeça.
Bom, o negócio é o seguinte: chega de dicas, ou seja lá qual for o nome para estas coisas. Se quiser ler mais disto compre o livro... Onde? Onde quiser, procure por aí, oras. Eu é que não vou ficar aqui, respondendo perguntinhas previsíveis ou estúpidas.
Assim costumam ficar as pessoas que lêem minhas dicas, ou ítens ou seja lá qual for o nome disto.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 00:55 [+]
...
Quarta-feira, Outubro 01, 2008
Perante tantas aflições tenho, ao longo de um período, não muito longo, claro, pois canso facilmente... Ã... Ah, sim. Tenho observado que as pessoas, de uma maneira geral, encontram-se estupefatas, cabisbaixas e, por mais um pouco chegam a se esboroar pelas calçadas por onde transitam tropegamente. Evidentemente que tal atitude é falta de algum sentido. Sinto que falta sentido para suas vidas um tanto quanto incrédulas.
Agora me pergunto: quem seria ou seriam os responsáveis por esta carência ou infelicidade ou falta de disposição que as pessoas vêm enfrentando? Ou ainda, qual ou quais seriam os motivos para esta desordem psíquica, motora, física, reatora... Bom, quando eleito for, tentarei, por N motivos, fazer uma verdadeira revolução na vida dessas pessoas. Se numa calçada do centro da cidade tiver, hoje, um buraco; deixarei que criem dois. Sabemos que dois funcionam melhor que um. Se a intenção era cair um, que caiam dois então, oras.
Digo-vos: Chega de escarcéu! Não permito nem permitirei escárnio para com nosso povo labutador, pois não gosto de escarninhos. Suas escaras, empobrecidos cidadãos, serão tratadas como nenhum outro assim o fez. Tempos atrás não permitiram que minha candidatura alavancasse, pois eu dizia a verdade sobre nossa sociedade moribunda. Minha saliva ácida escarvou a superfície do telhado de vidro dos sempre elegíveis senadores, prefeitos, vereadores etc. Agora digo: Chega! Chega, novamente. E chega!
Mas é isso. Agora vou descansar, pois este discurso todo me deixou com sede. Então munido de algumas garrafas de cerveja do meu lado, vou tomar até me babar e me lambuzar. Enquanto a vocês peço uma coisa: votem em mim. Entenderam bem? Votem em mim. Depois, bem depois, se não estiver com dor de cabeça, irei às ruas acenar para os tontos.
Nesta campanha possuo uma equipe afiadíssima de olheiros para me apoiar.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 15:46 [+]
...
Domingo, Setembro 14, 2008
Então o samurai se levantou. Algo parecia ter tirado seu precioso sono, algo o incomodava. Olhou para todos os lados com afã, na certa procurava por alguma coisa. E como quem procura acha, ele achou, ainda que com auxílio de óculos (hum?). Assim sendo foi de encontro de seu achado, mesmo que visivelmente tonto, ou melhor, creio que invisivelmente, pois estava escuro e não dava para se enxergar nada. Tanto que seu achado talvez não fosse realmente o que quisesse que fosse. Logo, estando totalmente escuro e ainda por cima tonto, não custou para tropeçar em chinelos, sapatos, meias, e, para completar, pisar no rabo do cachorro (hum?).
Veja, desta forma tudo pode pegar rumos diferentes. Aquilo que pensava que seria seu na verdade não era. E em sua busca frenética e, de certa forma descabida, para pegar a tal coisa, pegou a primeira coisa que viu pela frente, ou melhor, que sentiu pela frente. E agora surgiu uma dúvida: para que ele pegou os óculos se não podia ver nada?... Ã... Talvez tal pergunta não merecesse mesmo uma resposta. Em todos os casos, deixe-me continuar com a narrativa. De posse da coisa que encontrou pendurada em algum ponto do quarto ele tratou de vestir. Mas um samurai de verdade tem sempre de se precaver. Antes de vestir de fato o que pegou deu uma boa chacoalhada para espantar uma possível aranha marrom desavisada. Sabe, evitar picadas de aranhas é uma prudência louvável.
Assim sendo, como já estava fora de sua alcova certamente que ainda sentia zonzeiras. Afinal, despertou numa hora inapropriada para seu organismo tão acostumado a regras. Sendo estas regras que ninguém até hoje soube dizer quais eram. Enfim, com o sono tento ido para as cucuias de vez não tinha muito que fazer. Claro que a partir daí resolveu então assaltar a cozinha imperial (hum?), mais precisamente falando a geladeira imperial (hum?). E se batendo pelo corredor rumou possuído por estranho espírito glutão até chegar à cozinha. Como naquela noite fazia frio preferiu vestir o que havia pegado no quarto.
Assustado, mas não intimidado, vestiu assim mesmo; um robe de seda. Contudo, tal robe não o pertencia, era de sua esposa. E como disse: não se intimidou com a vestimenta, pois um samurai, melhor dizendo, um praticamente xogun, não se intimida assim, tão facilmente. E como não se intimida fácil e nem se sentia mais tão assustado assim, decidiu que o melhor a fazer seria fechar seu magnífico robe de seda que nem era seu. Contudo, não conseguiu. A barriga era uma grande barreira a se vencer. Na verdade, um inimigo íntimo. E de tão intimo que era tal barriga, fora considerada pelos súditos como sendo uma grande amiga do peito, digo, do abdômen... Ã... De qualquer forma permaneceu com o robe sem amarrá-lo devidamente. Pelo menos estava melhor que passar frio. Se bem que usando ou não aquela merda dava na mesma, o frio continuava. Mas tudo bem, a fome era maior que o frio.
Alimentando-se vorazmente, o xogun passou a acreditar que enquanto estivesse se digladiando com os pães, o corpo aquece. E crendo piamente nesta teoria ele tratou de comer, e comer o que tivesse à amostra. Primeiramente preparou um sanduíche feito com peito de peru e queijo e geléia de uva e sei lá mais o que junto e comeu numa sentada só. Coisa de glutão, claro. Mas aquilo estava seco demais para sua garganta. O que fez ele então? Oras, o esperado apenas. Todo nobre deve tomar bebidas finas para empurrar suas fanfarronices alimentícias goela abaixo. Sem pensar duas vezes abriu uma garrafa de vinho, sacou de uma taça e... Paft! Lá se foi a taça. Quebrou-a... E dentro da geladeira... Claro. Na verdade este tipo de coisa faz parte da vida de um nobre. Principalmente quando quebra coisas dentro de geladeiras. Como foi que ele quebrou uma taça dentro da geladeira? Não me pergunte isto; são coisas de samurais. E ainda por cima, ele era xogun. E xoguns podem fazer qualquer coisa. Pura mágica oriental.
Porém, não se deu por vencido. Logicamente que não. Limpou as mãos que estavam melecadas de maionese e pegou um copo, pois o restante das taças estava guardado em local seguro. Providencial foi esta medida. Enfim, o copo foi enchido de vinho por uma, duas, três vezes. De repente a garrafa secou, e o copo também. Em compensação o lindo robe de seda informava que estava cheio de migalhas de pão, e ao contrário do copo e da garrafa, estava úmido com imensas manchas de vinho e água, além de algumas porções lambuzantes de maionese, mais queijo e muitas outras porcarias. No final das contas até que aquela cena grotesca soava bonito... Bom, talvez bonito não fosse a palavra mais adequada para definir aquilo, mas talvez apetitoso caísse bem. Contudo, a palavra nojento coubesse melhor no meio daquela nojeira toda. Enfim, que fosse assim então.
E neste ritmo passou algum longo tempo. Assim sendo, o xogun, vendo que não tinha mais forças, nem estômago, nem cabeça para ficar lá, na cozinha imperial, decidiu que ir para a cama seria a melhor coisa que tinha naquele momento para se fazer. Logicamente que antes disto tratou de dar um jeito no pequeno imprevisto ocorrido com a taça e a geladeira e o robe e a maionese e por aí vai. Meticuloso, tratou para não deixar evidências de sua passagem pela cozinha, e sem piedade jogou os restos da taça pela janela. Contudo, não precisou ocupar sua mente brilhante com a geladeira imperial, bastou apenas passar um pano sobre as divisórias e gavetas e portas e termostato para que tudo voltasse a brilhar como dantes. E fez isto rapidamente por que já encontrava-se tonto pelas talagadas de vinho. E o mesmo pano serviu para melhorar o visual da cozinha, que, aliás, nem estava assim tão prejudicada pelo momento gastronômico. Bastou apenas dar uma garibadinha aqui e ali e pronto.
Uma rápida conferência pelo ambiente para certificar que tudo estava em ordem, desligar o rádio imperial que estava sobre o forno de microondas imperial... (hum?), mas não antes de terminar a música dos Flogging Molly que tocava naquele instante. Que por sinal o animou de abrir uma outra garrafa de vinho, pois a música era bacana. Contudo a prudência falou mais alto... Bem alto até. Inclusive a prudência já estava implicando com o samurai dos samurais. Para ser mais claro, estava até um tanto quanto truculenta. Bom, logo um cabo de vassoura zuniu de um lado da cabeça e quase, por pouco, não arranca uma de suas orelhas. E a coisa toda continuou quente por lá.
De repente, a música Supernaturally do Nick Cave começou a tocar, em seguida outra e devastadora vassourada veio assobiando em sua direção, desta vez atacando por baixo, e, por mais um pouco se não se espatifa numa de suas quase invulneráveis e calejadas pernas de xogun. Todos do palácio estavam impressionados com a habilidade do mestre em se desviar de armas. Mas uma fatalidade ocorreu, durante o impressionante salto mortal sobre a saraivada de chinelos mais os violentos golpes de vassoura a guerreira encolerizada o agarrou pelo robe de seda e o derrubou diante dela.
Tal atitude, inesperada e ao mesmo tempo inóspita, deixou sua íntima e idolatrável vestimenta à mostra, um perfeito e lendário exemplar de cuecão balonê de seda feita à mão. Bestificado com tal atitude, levantou-se rapidamente e se mandou para o sanitário imperial antes que o pau comesse mais uma vez em seu lombo. Seu fabuloso sentido xogun o alertou das atrocidades que poderiam lhe acontecer se permanecesse lá, ainda mais de quatro, como parou depois de rodopiar feito pião. Imaginem só, estar com as roupas íntimas à mostra, posicionado em posição duvidosa para o inimigo, e ainda, levar uma camaçada de pau de uma guerreira raivosa. Seria desonroso demais para um samurai da estirpe da dele.
O final da história foi a seguinte: amanheceu, a guerreira já não estava mais raivosa. Inclusive, fora até dormir. O resto dos habitantes do palácio, todos incrivelmente curiosos, também debandou, foram todos para as suas respectivas camas. Já o samurai, temendo que algo de ruim lhe acontecesse, preferiu permanecer no sanitário imperial, mais precisamente falando no vaso sanitário imperial, onde, inclusive, adormeceu lá. E para lhe fazer companhia nesta empresa ele contou com sua inseparável camiseta regata (furada por todos os lados), o robe de seda jogado por cima de suas costas parcialmente pelada e ligeiramente peluda (hum?), e o fabuloso cuecão balonê arriado abaixo de seus joelhos envelhecidos... Experientes, melhor dizendo, e o seu fiel companheiro, um cachorro com cara de "tô nem aí" peidando para todos os lados, pelo fato de ter comido uma generosa porção de repolho com ovo cozido, mais carne moída, polenta, pé-de-moleque uma porção de outras tolices antes de dormir (hum?). Tudo bem, xogun que é xogun não liga para coisas como estas, agüenta qualquer parada. E tudo terminou estranhamente bem, e ainda, com alguém ouvindo a música Acropolis Adieu com Mireille Mathieu que tocava naquele momento quase divinal.
Aqui está o xogun em momento de grande combate, tentando se livrar da grande enrascada em que se meteu.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 22:24 [+]
...
Quinta-feira, Agosto 14, 2008
Havia um motivo para eu ficar em casa naquela tarde, e tal motivo surgiu pela ausência total de coisas para fazer na rua. Os cafés já não têm tanta graça, ainda mais sozinho. Meus amigos, outrora ativos e unidos, encontram-se imersos em problemas senis. O Azambuja, por exemplo, saiu por esses dias de sua segunda internação em uma clínica psiquiátrica. Eu sabia que aquela história de ajeitar os objetos compulsivamente a seu bel prazer um dia resultaria em sucessivas internações. Talvez até faça uma visitinha a ele qualquer hora dessas. A chatice é que de última vez que o visitei pouca coisa agradável guardo na memória. Se bem que hoje em dia pouca coisa guardo na memória. Esqueço de tudo num simples piscar de olhos... Coisas de idade.
Deixe-me continuar... Ã... Bom... Já contei a vez que eu, meu genro e meu cunhado descemos parte da Estrada da Graciosa com meu fusca derrapando, patinando e rodopiando? Tal episódio deixaria até o James Bond se mordendo de inveja. Não tenho dúvidas sobre isto. E tal barbaridade só aconteceu depois de uma tarde comendo Barreado e tomando cachaça de banana lá em Morretes, ou Antonina... Sei lá, não me lembro onde foi que nos "barreamos". Mas, enfim... Ã... Então, a última vez eu visitei o Azambuja, como ia dizendo, servi de alvo para seus ataques de esquisitice. Todos os botões da minha camisa foram abotoados e desabotoados dezenas de vezes. Segundo a explicação de meu velho amigo, tem que haver harmonia no ato da abotoação. Seja ela feita de baixo para cima ou de cima para baixo. O importante é que haja harmonia. O importante é a harmonia... Sem dúvida.
Até aí, ainda que tal situação pareça chata, consigo contornar minha intolerância, que vive querendo chegar ao seu limite. Contudo, no momento que o Azambuja quis dividir meus cabelos em três hemisférios em quantidades iguais de fios capilares, mais o alinhamento dos pêlos do nariz, que deveriam estar voltados todos para a face Oeste de quem me visse de frente, eu perdi a paciência. Dei um basta na leitura randômica que ele havia se posto a fazer sobre minha faltosa cabeleira. Logicamente que o deixei como o encontrei, alinhando as cadeiras da sala de jantar e da cozinha de sua casa.
Já o Pereirinha encontra-se acamado; uma perna quebrada para ser mais específico. O motivo? Veja: com toda a habilidade que possui, a confiança em si próprio foi demasiadamente exagerada. Dia desses, ele estava conversando com seu alfaiate sobre a confecção de um novo terno quando avistou uma bela mulher num edifício em frente de onde se encontrava. E o que separava um do outro era apenas uma rua passando entre os prédios. Pequeno detalhe este que não intimidou meu ágil amigo. Então, de chofre, saltou para a janela que logo se lançou no vazio, que também, e claro, espatifou-se lá embaixo, pois a janela de onde estava a bela mulher encontrava-se fechada. E a janela estando fechada a situação se tornou difícil, claro. O que aconteceu foi um simples bate-volta. Tudo bem. E olha que depois de tudo o que aconteceu eu já esperava pelo pior, mas o resultado foi menos desastroso daquele que se podia imaginar. Ainda bem. No entanto, o susto foi grande.
Do Adalberto não podia nem devia esperar muita coisa. Após o incidente que resultou na quebra do então lendário rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves que possuía, seu mundo mudou... Para um aparelho mais sofisticado. Dos vários freqüentadores de bares, cafés e farmácias que encontro, isto é, quando os encontro, num destes ambientes já citados, pelo fato de que quase nem apareço mais em locais assim... Ã... Bom, tem alguns que conhecem o Adalberto pré-incidente, e alguns outros que o conhecem pós-incidente. Se bem que os do período do pós, na verdade, não o conhece de fato, pois sua introspecção se tornou crônica. Ainda mais depois que mandou um técnico eletrônico instalar uns auto falantes dentro de sua cabeça. Isto fez com que o mundo tenha se tornado em uma grande onda sonora.
O Beleléu... Ah! O Beleléu... Sempre envolvido em jogatinas, bebedeiras e coisas que não pretam. A vantagem que este me trás, se é que isto seja realmente uma vantagem, é que sempre que quiser conversar com ele eu o encontro em um dos bares da região aqui de casa. Se bem que por esses dias ele parou num pronto-socorro. A causa? Na verdade ele estava abusando no consumo de quitutes botequeiros, ou seja, dos famigerados romópis, dos bolinhos que ora são bolinhos ou quibes, ora são ovos cobertos por uma fina camada de bichinhos e que se fazem passar por bolinhos ou quibes. Tem também as porções de torresmo que, quanto mais cabeludo for o acepipe melhor é. Inclusive, aqueles que apresentam penteados são mais caros.
Tem também o militar aposentado que mora no mesmo prédio que eu... Mas não sei, nos últimos dias tenho visto algumas equipes médicas circulando pelo andar do apartamento dele. Só não consegui identificar se eram médicos do tipo tradicionais ou do tipo psiquiátrico, nem se eram para ele mesmo... Enfim. Falando nisso, até já meu deu vontade de tomar umas cervejas com ele. Além do quê, é muito cômodo para mim, bebo o quanto quiser e não preciso perder meu tempo olhando para carros no momento que for atravessar uma rua ou uma avenida. Basta apenas eu pegar o elevador ou rolar pelos degraus das escadas até chegar no andar onde moro. E depois, se ainda tiver forças, arrasto-me até a porta do meu apartamento e dou uns chutes nela. Se me recolherem, ótimo. Senão, fico ali mesmo, peidando e servindo de cão de guarda... Após ter comido um pedaço de carne envenenada. Ah! Que rima boa, à toa e danada.
Mas é isto. Tenho quase certeza de que a paciência de vocês tenha se esgotado. Digo este tipo de coisa por que a minha já se foi há tempos. E para isto só tem um remédio: terminar com esta história. naturalmente que eu poderia falar de mais alguns conhecidos, do proprietário do bar que às vezes vou quando tem aquelas formidáveis festas, o Odil, por exemplo, que tem como hábito colecionar canivetes, navalhas, lanternas, fios dentais, abajures, carrinhos Matchbox e outras tranqueiras mais que não tem nem valor nem sentido aparente. No entanto... Haja paciência. Mas é isso, vou terminar, vou encerrar, a esta hora, ora, ora... Putz! Preciso urgentemente parar com essas rimas idiotas.
Depois de tanto procurar os amigos e não encontrá-los, bom, até os encontrei, mas às vezes é preferível ficar só... Oras, os pombos são boas opções de companhia. O problema é que cagam para todos os lados, inclusive naqueles que estão perto deles ou que fazem companhia a eles. Mas tudo bem, nem ligo mais para isto.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 01:27 [+]
...
Terça-feira, Julho 08, 2008
Dia desses, num daqueles momentos em que o nada impera, resolvi vasculhar meu passado, que, esquecido em uma grande urna de madeira, clamava pela minha presença, ou pela presença de qualquer um que estivesse por perto. Então, sentado no capacete de Exército que tomei emprestado e nunca mais devolvi, revirei aquela tranqueirada toda que estava socada na tal urna. Logicamente que os moradores deste baú (aranhas, baratas, lesmas, pulgas, moscas e sei lá que outro bicho com chifres era aquele que vi) não gostaram do que fiz, mas eu não estava nem aí para eles.
E entre uma coçada e outra pelo corpo, proveniente das pulgas que se puseram a engordar às minhas custas. Mais as aranhas, que encontraram em mim um lugar mais que apropriado para criar suas moradas, e ainda, com direito a área de lazer. Das baratas não pude esperar muita coisa além das mordidas e mais mordidas. Já as lesmas, seres moribundos e previsíveis por excelência, não fizeram muito mais do que já esperava. Aliás, não fizeram nada mais daquilo que já esperava, se arrastaram pelo meu corpo com seus corpos visguentos e me deixaram todo nojento. Contudo, as moscas fizeram o que sempre fazem, encher o saco. Quanto ao outro bicho chifrudo, ficou me olhando e me olhando com seus olhos carentes por algum tempo, e depois foi roer um pé de meia que estava largado num dos cantos da caixa. Tudo bem, pensei, não gostava daquela meia mesmo, continuei com minhas conjecturas por mais algum tempo.
Mas veja, enquanto eu servia de alimento e área de lazer e alvo de encheção de saco para os insetos, outras coisas mais interessantes, ou não, brotavam do baú e me faziam brilhar os olhos de emoção... Ou não. Lá pelas tantas, quando eu já me encontrava perdido no meio de uma bagunça considerável, um maço de cartas saltou não sei de onde e caiu sobre meu colo. Confesso que até fiquei surpreso, mas foi só também, pois o whisky que eu estava bebendo no momento não permitia muitas outras surpresas. Sabe, os reflexos ficam mais lentos... Isto quando ainda sobram reflexos para ficarem lentos. Mas não podia me deixar abater, pois ainda tinha aquele fardo de cartas para descobrir do que se tratava.
Embora o sono começasse a atrapalhar em meus pensamentos, que também já não funcionavam adequadamente por causa do álcool, insisti nas minhas descobertas, ainda que estivesse quase parando dentro do tal do baú. Então, com os olhos ardendo de sono, a cabeça zonzeando por causa do whisky, o corpo todo melado e cheio de rastros pelas lesmas moribundas e previsíveis, das baratas que de tanto morder meus sapatos quase os furaram, das moscas que passaram a me xingar por sei lá qual motivo e do bicho chifrudo que, empanturrado de tanto comer meia fez seu micro cocô sobre o diário de um mago, ou de um magro, sei lá, bom, depois de tudo isso peguei a primeira carta para ver o que dizia.
No entanto, só depois de alguns minutos forçando a vista pude identificar aquele amontoado de letras sobre o papel. A carta era da minha prima que mora no interior, sim, a Goulda, a irmã do Ementhal (carinhosamente conhecidos desde crianças como irmãos queijo), e era do tempo que trocávamos correspondências, de quando ela escolheu viver no exílio lá no Paraguai. Digo que escolheu, mas é injusto usar este termo para definir o que aconteceu. Procure, você leitor, entender os fatos. Meus tios, os pais da Goulda e do Ementhal, criavam galinhas D’Angola, mas que as vigiavam pelos terreiros eram os filhos, ou seja, meus primos. Pois bem, até aí creio que todo mundo tenha entendido. O problema consistia, e ainda consiste, na lentidão de pensamento da Goulda... E do Ementhal também. Mas ela ainda é mais devagar.
Mas tudo bem, deixe-me continuar com os fatos. E para comprovar o que disse contarei uma passagem contada em uma de suas cartas endereçadas a mim. Passagem esta que foi o motivo para o exílio voluntário.
"Certa vez, numa dessas tardes lânguidas de verão, umas galinhas d’angola rebocavam-se no chiqueiro dos porcos com seus 'tô fraco, tô fracos' até não poderem mais. E o que parecia ser algo inocente transformou toda a minha tarde, digo, as minhas tardes, bem como as manhãs e as noites também, em um verdadeiro inferno. Como eu estava longe demais das capitais, tudo era tranqüilo e calmo, salvo quando um ganso, pato, peru ou galo resolviam atacar uma de suas fêmeas, daí o barulho dos pegas, dos gritos e mais dos efeitos visuais de penas voando, quebravam tal tranqüilidade e calmaria, e aí nos brindavam com a uma certa animação temporária... Mas... Ah! Sim; quase tinha esquecido o real motivo desta carta. Então, com toda esta monotonia usual das tardes, e ainda observando as galinhas comendo porcarias e ciscando, ciscando e comendo porcarias, e ainda ouvindo seus fabulosos 'tô fraco, tô fracos' para incrementar, acabei cochilando.
Algum tempo depois acordei, e nisso percebi que uma das galinhas havia sumido, e justamente a preferida do meu pai. Tive que procurar o bicho por que senão meu couro secaria na porteira do sítio para depois virar tapete e ser vendido a alguém. Contudo, veja o que me aconteceu. Saí à procura da penosa, claro. E por todos os lugares que passava via as pegadas da ave. Isto fez com que eu caminhasse muito. Consecutivamente passei por muitos lugarejos, e quando perguntava aos moradores se haviam visto a dita da galinha eles imediatamente apontavam para uma direção. Sendo assim, lá ia eu com minhas galochas amarelas e tudo mais. Sei dizer que caminhei muito mesmo, tanto que nem sei por onde. Até que anoiteceu, quero dizer, fazia tempo que tinha anoitecido, e eu não sabia voltar para casa. Logicamente que tive de encontrar um canto para me aninhar e passar a noite, para depois então descobrir onde a galinha e eu fomos parar.
Quando o dia amanheceu percebi coisas muito diferentes daquelas que sou acostumada a ver. Pessoas com cara de índio... Se é que podemos chamar índio de índio. Mas enfim, falavam num idioma tão estranho que não conseguia identificar o que falavam. Engraçado, pensei naquele instante, isto nunca tinha sido problema para mim, pois sempre entendi o que aquela caipirada da região de casa fala, ou melhor, resmunga. Foi aí que pensei, um pouco mais, que eles, ou melhor, que eu não estava nem próximo da região onde moro. Mas também não me apavorei tanto quanto pensei que fosse acontecer. Já estava tudo perdido mesmo. Então, sem muito que fazer ou que pensar, tratei de me arranjar por onde estava mesmo.
E sabe que as coisas até que melhoram para mim... O que aconteceu com a galinha? Oras, uma hora teria de comer algo, e como já havia encontrado a maldita ciscando umas minhocas perto de onde eu estava não tive dúvidas. Comi-a, sem dó. E para ser sincera, não fiquei com remorsos por ela ter sido a favorita de meu pai. E também, o tempo passou e tudo ficou bem... Para mim, claro, pois com meu pai nem tive notícias ainda. Garanto que minha mãe, tonta do jeito que é, nem notou minha falta ainda, e olha que já se passou uns três meses da época que me perdi. Hoje em dia estou casada, ou arranjada, sei lá, com um desses sujeitos que vive por estas regiões. E se me perguntar se já entendo o que falam eu respondo, ainda não. Mas também quem se importa com isso? Mas é isto, já cansei de escrever. Mesmo por que meu amásio é louco de tarado, fornicamos praticamente o dia inteiro. E se continuar escrevendo daqui a pouco vai sair tudo borrado, pois ele já está se recuperando de mais um seção animalesca de sexo.
Ah! Baltazar, antes que esqueça, peço-vos para que entre em contato com meus pais e meu irmão, talvez estejam preocupados comigo. Por que não escrevo para eles em vez de escrever para você? Porque simplesmente não sei o endereço de casa, aliás, não existe endereço lá. Então, se me fizer este favor ficarei bastante agradecida com este gesto. Por ora é isto, preciso parar com a escrita agora, as grandes mãos do meu homem acabam de me agarrar por trás, e começo a sentir uma grande pressão em minhas costas. Então, até mais ver meu primo. Preciso encerrar agora antes que escreva bobagens demais.
De sua prima Goulda".
E com isso eu, todo enrolado em teias de aranha, babado pelas lesmas, mordido pelas baratas, atazanado pelas moscas e ignorado pelo bicho com chifres também encerro mais este capítulo. Até qualquer hora.
Ah! Prima Goulda... Que posso eu dizer alguma coisa dela? Sem comentários... Se bem que, se bobear, eu acabo fazendo algo parecido.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 17:07 [+]
...
Quarta-feira, Junho 11, 2008
Dia desses resolvi inovar, saí sozinho à procura de bar... Tudo bem, nem foi uma grande inovação. Aliás, nem foi inovação coisa nenhuma, pois na maioria das vezes já procuro fazer este tipo de coisa. Mas deixe-me contar assim mesmo. Após muito tempo sem dirigir meu fusquinha decidi que devia fazer isto, afinal, foi meu companheiro durante muito tempo, e sendo um companheiro acredito que devíamos sair para um passeio ou qualquer coisa que arremetesse os pensamentos para isto. Contudo, tal saída seria acompanhada pelo meu cunhado, aquele quase inglês que tornou-se uma verdadeira bomba flatulante de uns tempos para cá. Tudo bem, as rajadas que ele solta até que são divertidas... De se ouvir, claro. E que fique muito bem entendido este caso de flatos; se forem apenas barulhentos sem problemas, mas se forem cheirosos, digo, mal cheirosos... Nem pensar.
Então estávamos nós rumando ao desconhecido. Animados? Logicamente que sim, porém, sem nenhuma palavra a dizer. Poderia perder o encanto. E lá pelas tantas, após termos perdido algumas ruas que deveríamos entrar, alguns caminhos que deveríamos seguir e algumas noções que deveríamos manter, chegamos a um lugar com aparência agradável. Havia muita gente no local, alguns rostos alegres, outros bobos, outros tantos tipo paisagem enquanto ouviam a eloqüência de um contador de lorotas em seu desempenho ridículo para expressar um fato acontecido, ou não, e, para finalizar, uns poucos estampando em suas caras modorrentas a expressão de indiferença, tanto pelo papo alheio que ouviam, tanto da bebida insossa que pediam para bebericar, quanto de suas próprias faces embotadas e desbotadas.
No local tinha quase de tudo para um homem se sentir feliz, ou pelo menos em paz consigo mesmo. Tinha gente disposta a falar e a ouvir besteiras, curtir boas bebidas e boas músicas também, algumas das poucas mulheres que dispunham lá, porém, estas poucas mulheres estavam acompanhadas. Então, isto queria dizer que não existiam mulheres disponíveis. Mas isto também tanto fazia para mim. Nada ia fazer além de apenas olhar para aqueles pares de peitos empinados e firmes, para aqueles lábios carnudos e para aquelas bundas que acenavam para todos os outros enquanto vagavam pelo ambiente... Ar puro... Se tinha ar puro? Ora essa! Claro que não, era uma charutaria. Aquilo parecia uma sauna de tão enfumaçado que estava. Mas tudo bem, havia um clima de divertimento naquele ar viciado, ainda que tivesse de ouvir conversas do tipo: compras e vendas de ações, peças compradas ou vendidas em leilões, resultados de cálculos exuberantes em Física Quântica, ou em Matemática Financeira, sei lá. Que entendo eu de cálculos, oras! Bom, então tinha também, Filosofia, Fotografia, Cinegrafia, Subliminaridade, Cromoterapia, Psicoterapia, Geologia, Hemorragia e, para encerrar, sobre os vários efeitos que uma bebedeira de classe pode proporcionar.
Lá pelas tantas estava eu ao lado de um sujeito que discutia com um argentino sobre futebol, claro, sempre é sobre futebol. Enfim, o tal sujeito, entre uma troca de ofensas e outra, pediu, para lhe dar mais forças nas inflamadas e inúteis discussões futebolísticas, uma caneca com caldo de feijão. Até por que este era o alimento que costumava consumir antes de iniciar suas noites etílicas, segundo o que diziam os demais habitués. Mas até aí tudo bem, não dou a mínima para discussões, quanto menos para argentinos. Na verdade o que realmente me chamou a atenção foi a vermelhidão de suas mãos; eram incrivelmente vermelhas. E entre uma gozação com a cara do argentino e o time que o gringo torcia, os vários tipos de temperos existentes no balcão corriam de um lado para outro em suaves deslizadas até caírem em quantidades incontáveis dentro da caneca do caldo. Tudo para deixar aquilo bem mais gostoso de tomar, segundo o que o tipo das mãos incrivelmente vermelhas me segredou. Enquanto isto o argentino, notadamente tenso, não parava de roer as unhas. E roeu tanto que não demorou muito tempo para roer aos próprios dedos, tamanha preocupação com o time. Que, no meu ponto de vista, tanto fazia saber disto também.
Contudo, era dado o momento de minha volta ao lar. Talvez a Olga já estivesse procurando saber de mim... Ou do meu cunhado, sei lá. Era uma pena ter de sair daquele jeito, afinal de contas estávamos nos divertindo. Cada qual à sua maneira, é claro. Mas como disse, tínhamos que voltar. Mesmo por que o trajeto que usei para ir à charutaria não seria o mesmo a utilizar para a volta, e como nem me lembro como foi que cheguei naquele recinto, dificilmente acertaria de primeira qual o trajeto deveria usar para nosso regresso ao lar.
E como já previa, a volta foi difícil, e consecutivamente, demorada. Em alguns momentos chegamos a pensar que nunca mais veríamos a civilização, pois vagamos quilômetros no meio de algumas plantações de sei lá o quê. O relógio mostrava sua mais nefasta, seus ponteiros corriam mais rápido que meu fusca e muito mais rápido que os peidos do meu cunhado podem percorrer pelos narizes alheios em lugares onde não tem circulação de ar. Sabe, de tanto me incomodar com relógios deixei de usar este tipo de coisa. Que são bonitos, não tenha dúvida de que têm alguns que são, mas que incomodam, incomodam. Mesmo por que, nem preciso de relógios, não tenho mais horário para nada mesmo.
Mas continuando; com o carro enfiado num matagal, nada tinha a fazer senão esperar. Logicamente que pus meu cunhado pra fora, não estava com vontade de sentir os aromas de baixo calão que os peidos dele costumam produzir. Logo após de ter visto o dia amanhecer resolvemos dar uma volta para tentar descobrir onde estávamos. Um tempo depois nos, amos com os pés encharcados por termos pesado num banhado e depois em montes de bosta de vaca, ou cavalo, resolvemos voltar para o carro. Talvez eu tivesse lembrado como voltar para casa. Vocês devem estar pensando que eu, naturalmente, pudesse estar pelo menos roxo de raiva, encolerizado até, mas não. Ria de quando em quando por conta de meu cunhado, ainda que constantemente seja uma pessoa provocativa e irônica, contava anedotas engraçadas o tempo todo, pelo menos entre um peido e outro.
E ao chegarmos no carro tivemos uma grande, surpreendente, pesada e assustadora surpresa; uma não, duas. As mesmas vacas que largaram suas bostas pelos caminhos onde caminhamos e pisamos, pelo menos é o pensamento que me vinha à cabeça no momento, estavam debruçadas sobre o carro; uma coçando seus enormes úberes na antena do veículo, e a outra ruminando tranquilamente o espelho retrovisor do carro. Sem dúvida alguma esta foi uma cena escatológica, poderia dizer até que foi uma cena dantesca de se ver. Que foi que fiz? O que deveria ter feito, oras. Meti um chute na bunda da vaca que comia o espelho. Da outra vaca quem cuidou foi meu cunhado, porém, não do jeito que eu esperava. Ele pegou a tampa de alguma coisa que tinha no caro e encheu com leite. Depois aproveitou que o motor do fusca ainda estava quente, tirou um pouco de água do radiador e fez um chá. Após esta outra cena dantesca misturou o chá com leite apanhado e tomou tudo. E quando as coisas se mostravam bizarras demais para mim ele entrou no carro e disse para irmos embora o quanto antes. O tal chá estava fazendo um efeito não esperado... Tudo bem, já imaginava que uma coisa destas pudesse acontecer.
Com o passar de mais algumas horas à procura do caminho de volta meu cunhado resolveu expelir tudo aquilo que o incomodava; vomitou um tanto pra fora enquanto seguíamos viagem, e, para completar, deu uma bela cagada, azeda e horrenda, por sinal. E dentro do carro, claro. Tudo para completar o quadro das situações inusitadas. Se bem que, de certa forma, já esperava que as coisas terminassem assim. Logicamente que não nestas proporções, mas... Enfim. Um tanto mais de tempo se passou e finalmente conseguimos chegar, e nem quis saber de muito papo. Larguei o pobre fusca num lava à jato e fomos bamboleando de cansaço até meu apartamento. Entrando tive de usar de todas as artimanhas que conheço para não dar explicações... Pelo menos naquele dia. Meu cunhado se trancou no sanitário para demonstrar o quão experiente se tornou na arte de fazer nojeiras. Quanto a mim, restou a companhia do cachorro na área de serviço. Do jeito em que me encontrava não deixaram que eu fosse para o quarto, muito menos para a cama... Tudo bem, de certa forma já esperava isto também.
Na verdade eu esperava encontrar a Olga toda receptiva, pois tinha planos para esta noite (12/06), mas a coisa toda saiu errada.
E como disse anteriormente, a coisa toda saiu errada, perdi o controle. Assim sendo o único que me aturou em casa foi o cachorro... Tudo bem, eu até gosto dele.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 00:39 [+]
...
Sábado, Maio 03, 2008
ANNO V
Dia desses cheguei em casa mas logo tive de sair, estava de saco cheio, não queria ficar lá, só, feito um móvel, pois não tinha ninguém em meu lar. Até o cachorro e o pequeno e poderoso gato haviam saído. Então passei no apartamento daquele militar aposentado que mora no mesmo prédio que eu, mas também tive de sair; havia um forte cheiro misturado de bosta com desodorizador de ar, ou, para ser mais direto, aquele tipo de desodorante que se põe em sanitários para aliviar os cheiros menores produzidos após uma boa sentada no vaso. Bom, então descobri que teria uma reunião de condomínio logo mais; pensei em ir, mas logo desisti, também. Resolvi pegar meu mini, micro aparelho de som com fones de ouvido e fui àquela estúpida praça perto de casa. Por que não quis ir à reunião? Não gosto de ouvir as estúpidas discussões que surgem por nada nessas estúpidas reuniões, ou melhor, runiões; como diz a digníssima e estúpida síndica.
Na praça percebo que os dias passam e aos poucos percebo que minha vida transborda bacia à fora. O que quero dizer com isto? Que sei lá eu, oras. Só sei que me deu vontade de dizer isto. continuando; meu diminuto aparelho de som, muito útil para esses momentos, regava-me com boas músicas enquanto esperava o dia passar. Por que não usava mais o rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves do Adalberto? Oras, por que simplesmente não existia mais. Não lembra que este saudoso aparelho se espatifou no asfalto uma tarde qualquer? E para suprir minha necessidade musical fui obrigado a comprar um. Pois bem. Ã... O dia era segunda-feira, nada em especial deveria acontecer. Pelo menos é o que pensava.
Lá pelas tantas um sujeito magro, estranho e com cara de poucos amigos se sentou no banco ao lado do meu. Até aí, tudo bem, desde que não viesse me encher o saco. Então, sentados estávamos, porém, cada qual em seu próprio banco. Os peidos surgiam sob o efeito pingue-pongue, era lá e cá. Estava divertido até, apesar de não conhecer o sujeito do banco ao lado, nem ele a mim. O que era melhor, pois não queria conversar mais com ninguém, já estava aborrecido. Contudo, um carro de som passou pela praça em velocidade moderada e aos berros gritando meu nome. Fiquei puto, mas me controlei, não queria demonstrar minha putidez. Percebi que o sujeito do lado também estava incomodado, tanto que não parava de beliscar seu próprio saco... Nervosismo, talvez.
E assim que o carro passou pela quarta vez em volta da praça gritando pelo meu nome eu me levantei e xinguei. Nem o Great Lake Swimmers que eu ouvia naquele momento me impediu de fazer o que fiz. Mas tal fato não parou por aí, o tipo ao meu lado também ficou em pé e xingou, depois me olhou espantado, com cara de puto da vida. Que estranho isto, pensei. E acredito que também deva ter pensado o mesmo a respeito. Mas nem me importei. Afinal, não me importo com os outros, principalmente com estranhos. Contudo, aquela situação estava estranha demais para meu gosto, porém me contive. Também não sou de dar trelas a estranhos. Na verdade não é aconselhável parecer oferecido diante de outras pessoas, elas podem interpretar mal... O quê? Como assim interpretar mal? Ora essa, sei lá.
Então, diante daquela situação olhei nos olhos do sujeito e quando fui para fazer uma pergunta o carro de som passou mais uma vez gritando meu nome... Nós dois olhamos enfurecidos para o motorista do tal carro. Percebendo que o cidadão também olhava encolerizado para o veículo barulhento perguntei qual era a relação dele com a máquina ambulante de fazer barulho. Olhou-me de cima de sua magreza, e com seus olhos agudos e sobrancelhas volumosas e bigode parecendo um chumaço de pentelhos grudados na cara perguntou qual era meu nome. Solícito que sou fiz questão de não responder a pergunta, e ainda dei de ombros a esta indagação. Não tenho o hábito de dizer meu nome a qualquer um. Todavia, diante da insistência do indivíduo acabei por responder... Ainda que contrariado.
O caminhão havia dado uma trégua a nós Baltazares. Como assim Baltazares? Oras, o outro sujeito também era Baltazar. E descobri ainda que era meu sobrinho, por parte de meu irmão que ficou perdido no mundo por um longo, longo tempo. E por que nunca mencionei deste meu irmão? Claro que já mencionei, mas foi uma vez só também. Coisa esta que, também, não faz a menor diferença. Descobri que meu sobrinho também não gosta de vizinhos... Digamos que puxou a mim; só que mais feio, claro. Então, passado alguns minutos, a porra do caminhão do som passou mais uma vez gritando meu nome, digo, nossos nomes, em plenos pulmões. Quando estávamos preparados (eu, minha coleção de peles flácidas e meu pé de plástico e mais meu sobrinho, suas sobrancelhas grossas e seu bigode parecendo um chumaço de pentelho grudado na cara) para jogar algumas pedras naquele infeliz desceu do automóvel o Pereirinha num salto pra lá de extraordinário, o Azambuja com suas tradicionais esquisitices e o Odil com uma faixa enrolada em seu corpo. Sendo que tal faixa trazia o nome do bar do qual ele é proprietário.
Abraços fortes e sacolejantes apertos de mãos foram dados. Tudo acompanhado com largos sorrisos estampados em suas faces extraordinariamente alegres. O Odil, para variar, resolveu me presentear com uma festa em seu bar. Ele convidou todos e tudo o que podia e o que não podia; teve apresentações de malabaristas com os rostos maquiados de púrpura com laranja metálico, horríveis por sinal, ainda teve uns bêbados cantantes e dançantes, mas nada galantes. Tinha mais umas coisas lá, mas não me lembro direito o que eram. Contudo, tenho certeza de uma coisa: o ponto principal da noite que, apesar de ser uma segunda-feira, foi a contratação de uma confeiteira boazuda para confeccionar um bolo para a comemoração dos cinco anos do blogue.
O bolo consistia de cinco andares, cada andar tinha um metro de altura, e cada metro equivalia um ano. O formato deste bolo até que era simples, parecia uma escadaria, porém, o que chamou a atenção de todos que passavam na rua foi justamente de ele ser montado na esquina do boteco, pois não cabia dentro do recinto... Ã... Sim; no alto do bolo tinha mais duas gostosas vestidas com blusinhas de cetim e amarradas na região do abdômen, além, é claro, das mini-saias que levantavam com o vento a todo instante. Detalhe este que nenhum dos clientes deixava escapar. E falando em clientes; podia-se ver de tudo lá, desde políticos, sambistas, roqueiros, advogados, médicos, empresários da noite, do dia, da tarde, coçadores de saco de várias idades... Até padres compareceram. Estava uma verdadeira festa. Logicamente que os padres não olharam para as bundas das gostosas de cima do bolo... Pelo menos é o que penso
Agora a grande inovação de todas as festas já realizadas no Distinto Cavalheiro era, sem dúvida, o bolo. Por quê? Oras, era em cima do bolo que serviam o chope, e as boazudas é que tiravam o chope para o pessoal, e a pessoas que lá estavam tiravam suas línguas pra fora no maior exemplo de obscenidade. Bom, quase todas, pois não vi o padre fazer isto. Contudo, aquela situação estava estranha, pois não vi o religioso beber nenhum copo de chope nem fazer nenhum sinal escandaloso para as meninas de cima do bolo, e assim mesmo ele corria a todo instante ao sanitário. E quando saía de lá saía com cara de cansado... Bom, nem sei o que dizer.
Uma coisa me deixou encucado sobre o padre. Ele entrava demais no sanitário... Mas não devia ser nada demais... Oras; eu pensar coisas do religioso... É, é isso; nada demais. Apenas vontade de ir ao sanitário. Talvez para apreciar a reforma que o Odil fez por último.
Bebemos muito naquela noite, e pra variar, perdi meu chapéu, o terceiro talvez, no meio da bebedeira. E também queimei mais uma camisa com cigarros, charutos, cachimbos e outras coisas nem imagino o que seja. Porém o Baltazar, meu sobrinho, viu como são as festas que costumo ir, mesmo com minha coleção de peles flácidas e meu pé de plástico. Então, continuando; à meia-noite um festival de fogos de artifício clareou o céu curitibano, o que deixou o prefeito, o vice, o antecessor deste prefeito com sua guarda pessoal formada por ninjas (guerreiros japoneses que trajam terno preto, camisa branca e gravata cor de abóbora) e o antecessor deste em polvorosa, mais ainda este último, que chegou a requebrar o quadril de um lado para outro como se estivesse dançando mambo ou qualquer coisa do gênero.
Ah, vale dizer que a festa contou com a presença do maestro Matozo e sua orquestra bacana, claro. Bom, e aí, lá pelas tantas, o bolo foi cortado... Pelo menos o que sobrou dele, pois estava todo pisoteado pelas moças e pelos machos que não paravam de babar de bêbados e de tesão. Menos o padre, lógico... É o que continuo a pensar. Em compensação o banheiro era só dele, principalmente no momento em que as dondocas ameaçaram abrir as blusinhas para deixar os seios saltarem e fazer com que os olhos da macharada também saltassem. No entanto, era dado o momento de voltar para casa. Meu lar me chamava, minha cama solicitava minha presença. Podia sentir isto... Além do quê, minha cabeça já parecia um pião rodando, um satélite que gira em torno de um planeta sob a influência de uma graduação alcoólica altíssima... Ai, minha cabeça! Por sorte ainda tinha conseguido uma carona de volta, pois se dependesse de ônibus para voltar sei lá aonde iria eu parar.
Não sei, mas tinha alguma coisa naquele padre que perturbou um bocado naquela noite. E por incrível que pareça continua me perturbando... Por que é que ele ia direto ao sanitário? Ele não bebeu nada além de uma garrafa de água mineral, e nem foi lá fora babar pelas moças como fizeram a maioria dos que lá estavam.
Porém, tal festejo fora feito na segunda-feira, dois dias antes do aniversário do blogue efetivamente falando. Então foi estipulado um tempo de um dia para sarar ou amenizar a ressaca braba, e aí então, mais uma festa surgiu. Ainda bem que a segunda festa foi menor que a primeira, por que senão certamente empacotaria em alguma vala comum. Teve bolo também, mas não foi tão escandaloso quanto o outro. De certa forma até agradeço por esta outra festa não ter sido no bar do Odil novamente, nem tão boa quanto aquelas que acontecem por lá. Sinceramente não sei o que poderia acontecer comigo desta vez. Logicamente que contou com a participação dos meus amigos, o Azambuja tentando arrastar os bancos de um lado para outro. Mas só tentou também, pois os bancos eram chumbados no assoalho... Sorte dos que lá estavam por isto. O Pereirinha se mostrava simpático e engraçado até; deu cambalhotas sobre os lustres do ambiente. Detalhe este que deixou o dono do boteco ligeiramente apavorado. Mas logo o fiz se acalmar num dos bancos que o Azambuja tentava inutilmente arrastar.
Mas creio que seja preciso parar de contar as aventuras da semana, pois minha cabeça está latejando, desde a terça-feira de manhã que tive de acordar para ir ao sanitário fazer algumas coisas. E quando pensei que fosse me acalmar me resgataram da cama para me levar a outro bar, beber e tudo mais... De novo. Agora estou aqui, esticado no sofá, enrolado num cobertor, pois faz frio agora, todo cheio de dores e enjôos. Do meu novo sobrinho não sei, nem dos meus amigos. Devem estar todos por aí, vasculhando as farmácias a procura de seus remédios preferidos, embora alguns sejam necessários tomar realmente. Quando sarar desta zonzeira sem tamanho farei minha contabilidade, talvez saber quanto gastei nesta folia seja importante... Ou talvez não. Mas agora peço licença para retornar ao meu repouso... Tenho a impressão de que minha cabeça vai estourar.
Quando sarar eu volto a falar com vocês. Portanto até qualquer hora.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 00:11 [+]
...
Domingo, Abril 06, 2008
As coisas pareciam estar tranqüilas no início da semana; a Olga passeando de porta em porta do prédio e colocando seus assuntos em dia com a vizinhança, as crianças indo para seus trabalhos e faculdades, o cachorro cagando por todos os cantos, latindo para o nada e babando pelo chão, o gatinho demonstrando suas capacidades de enfrentar as cortinas sem medo com suas pequenas garras afiadas, e eu aqui, sentado no pufe a observar uma mosca que voava em sua trajetória absurda pela casa, que tentava incansavelmente vencer a barreira dos vidros as janelas em colisões desmedidas e tolas. Na certa ela pretendia, logicamente que calcada em seu espírito empreendedor, sair para outros lugares, e assim, fazer das suas mosquices. Tudo bem, ela não conseguiu vencer tal barreira, então se cansou e pousou no chão. Foi aí que o cachorro entrou em ação; comeu-a sem dó com uma única bocada.
Cansado de ver tamanha destreza resolvi sair de casa, estava cheio de toda aquela atividade. E após quase uma hora pensando o que vestir para ir às ruas me obriguei a pegar uma cervejinha, pois já estava exausto de tanto pensamento. Foi aí que decidi em sair do jeito que estava, ou seja, com as calças de moletom que mostravam sinais de desgaste. Sabe quando os joelhos dessas calças ficam avantajados e ligeiramente esbranquiçados? Então. Bom, estava também com a tradicional camiseta regata, e esta com alguns furos espalhados por todas as faces, para completar o visual, um par de sapatos sem meia, claro. Queria estar à vontade para caminhar. Se bem que isto não faz a menor diferença, justamente pelo fato de que não consigo caminhar de maneira tranqüila, meu pé de plástico não permite tal tranqüilidade. Vez por outra ele procura um buraco para se enfiar... Ah! Esses pés de plástico são uma bosta mesmo.
Então estava eu, meu pé de plástico, minha coleção de peles flácidas espalhadas pelo corpo, meus cabelos ralos e meu par de olheiras tamanho família caminhando, todos juntos, em direção ao apartamento daquele outro militar aposentado. Aquele que mora no mesmo prédio que eu; sim, aquele que tem um cachorro e uma filha, ou neta, sei lá. Chegando lá já encontrei a porta aberta, digo, entreaberta. Tenho a impressão que ele tem algum sentido muito desenvolvido, pois ele deve saber quando vou à sua casa... Ou... Ele não costuma fechar a porta mesmo. Tanto faz também. Só sei que assim que entrei já ganhei uma lata de cerveja. O problema consistia no aonde sentar; estava tão amontoado de latinhas por todos os lados, em cima dos sofás, atrás deles também, sobre e sob o televisor... Na mesa da sala de jantar; aliás, sobre este móvel tinha até um castelo feito de latas. Uma verdadeira obra. Logicamente que não uma obra de arte, e sim, obra de quem não tem o que fazer. Na mente dessas pessoas qualquer coisa besta acaba por se tornar atividades sem nexo. Motivos estes que valem à pena serem comemorados.
Ã... Enfim, mais uma tarde sem nada para fazer. Eu com a minha coleção de pele sobrando, meu pé de plástico e outras coisas mais, todos sentados entre um mar de latinhas vazias de cerveja categoricamente amontoadas sobre um sofá fedorento. Ah, o... Não lembro do nome do sujeito que me acolhe, mas não vejo motivos para tanto, pois ninguém precisa chamar ninguém pelo nome, basta mostrar a face da lata e falar uma ou outra besteira que estará tudo resolvido. Quando muito comentamos sobre alguma coisa importante, e quando sentimos que é preciso dizer o nome da pessoa, por sei lá qual motivo, outra latinha surge para que tal detalhe se torne desnecessário. E desta maneira as horas passam em nossos relógios empoeirados sem grandes dificuldades. Depois disto é momento de voltar ao lar, mas não sem antes lançar um breve aceno para o companheiro das tardes vazias e estúpidas. Em seguida, vem a batalha de vencer o mar de latas que estão espalhadas por todos os cantos. E num festival de braçadas consigo sair daquele apartamento sem me afogar. Bom para mim, bom para ele, bom para ambos. Até para aqueles que vivem comigo, e ainda, é bom para a humanidade quando fico enfurnado em lugares deste tipo. Mas é isto, até a próxima.
Aqui estávamos nós, sentindo-nos como grandes companheiros.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 23:03 [+]
...
Terça-feira, Março 25, 2008
As tardes pareciam intermináveis nesta última semana, e ainda assim passaram muito rápido. Por um lado isto é bom, por outro, descubro que assim como as tardes minha vida também se vai. Mas isto é o caminho natural da vida. Bom, sei dizer que diante da chatice latente que reinava no meu apartamento resolvi passar uns dias da semana nos vários botecos existentes na região. Então lá fui eu e meu pé de plástico num misto de tropeçadas e caminhadas cambaleantes pelas calçadas tortuosas até os bares. E antes mesmo de beber qualquer coisa já parecia um bêbado pelo caminho. Tudo bem, não ligo de parecer um ébrio que anda pelos lugares parecendo sei lá o quê.
Logo no primeiro boteco que resolvi visitar dei de cara com o velho Eustachio sentado à mesa e esta forrada de garrafas vazias, naturalmente. Quem fazia companhia a ele, no momento em que cheguei, já estava dormindo, naturalmente. A dona Jurubeba, proprietária do bar, continuava com sua face escorrendo gordura, e ainda, rodando um pano de prato para ventilar o local onde ela se encontrava, naturalmente. Já as moscas que sobrevoavam o ambiente não se incomodavam com as rodadas frenéticas do pano. Vai ver elas até gostavam disto, pois devia refrescar-lhes... Sei lá.
Fiquei uma das tardes neste bar, mas cansei de ver a velha rodando o pano sem parar, o Eustachio resmungando coisas sem parar enquanto seu companheiro adormecido disputava um espaço vazio na mesa com as dezenas de garrafas também vazias. É, decididamente não queria ver aquelas coisas; fui para outro bar, naturalmente. No segundo estabelecimento vi o Beleléu atormentando um baixinho junto ao balcão, só por que este não conseguia alcançar os pés no chão enquanto ficava sentado na banqueta. Parecia maldade, mas até que estava engraçado ver aquela situação. A coisa só ficou feia quando o tal baixinho tirou um canivete do bolso e quis furar todo mundo; levou um tapa na nuca e se estatelou no chão... Naturalmente. Bem feito, pensei. Mas também não queria ficar ali vendo o semi-anão levar porradas até não poder mais. Então parti para outra.
O terceiro bar da tarde estava mais tranqüilo, só estava estranho ver a dona do estabelecimento usando aquele bigode. E mais estranho ainda foi ver uma chupação de beiços entre duas jovens num canto. Isto sem contar que tinha um rapaz muito magro rebolando descontroladamente do colo de outro rapaz também magro. Mas tudo bem; tinha uma gordinha se engraçando para mim... Não dei a mínima; naturalmente. Então paguei minha cerveja, minha vodca, minha água tônica com limão, meu conhaque e minha outra cerveja e fui embora... Naturalmente. Estava cansado de tanto ver coisas estranhas.
Havia um problema; não lembrava como voltar para casa. Sou um bosta, perco-me fácil. Tudo bem, caminho até encontrar alguém ou um lugar conhecido, pensei. Depois de mancar e tropeçar e sei lá o que mais me deparei com o bar que o velho Eustachio costuma freqüentar. Menos mal. E um tempo depois já me encontrava sentado no lugar do sujeito que dormiu a tarde toda na mesa junto com as garrafas. O que aconteceu com o sujeito? Estava dormindo no chão, do meu lado. Quanto a mim, estava lá, tomando mais algumas cervejas, e acumulando as garrafas vazias em outra mesa... Naturalmente. Como voltaria? À pé, oras. Mas isto não foi problema, estava perto de casa. Conhecia bem o trecho de volta. Sobre as outras tardes; foi um pé no saco. Passei as outras tardes com uma tremenda dor de cabeça e umas tonturas estranhas. Tudo bem; uma tonturinha ou outra dá até um temperinho especial em nossos cotidianos sem graça.
As jovens que aqui estão são as mesmas que mensionei há pouco, sim, aquelas que promoveram um estranho festival de chupões, mutuamente falando, num canto do boteco. Ai, ai, nem sei onde estas coisas vão parar.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 23:38 [+]
...
|